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Economia&Negócios
CSS
Voracidade Fiscal
Por que o estado brasileiro está sempre imaginado uma maneira de tributar mais? Os impostos retornam para a sociedade ou grande parte deles se dissolvem no financiamento de uma máquina pública perdulária e improdutiva? Sem a CPMF, a arrecadação tributária bateu recorde no primeiro semestre de 2008. Mas o bolso do cidadão continua em perigo: a Contribuição Social para a Saúde (CSS) está em votação para ser o substituto “eficaz” da CPMF.

O mais novo e temido imposto atende pelo nome de Contribuição Social para a Saúde (CSS) e está em discussão no Congresso Nacional. Sugestão de autoria do deputado Pepe Vargas, do Partido dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul, a emenda prevê que 10% da arrecadação da União seja direcionada à saúde, assim como 12% da receita líquida do Estado e 15% dos municípios. Além disso, a União deve designar o total da variação do Produto Interno Bruto (PIB), a inflação e o valor global da CSS integralmente para a saúde. Pepe adiantou que as movimentações destinadas à saúde (construções, empréstimos e ambulâncias) realizadas pelo presidente da República, prefeitos e governadores não serão inclusas à receita corrente líquida. Mas será retroativo: a isenção contará nos gastos de Saúde dos anos seguintes apenas para estados, municípios e o Distrito Federal. A cada cinco anos, os termos de cobrança da CSS serão revisados. Muitos já se mostraram contrários ao possível imposto e afirmam que, ao invés de preencher os vácuos do setor, os cálculos do deputado retirarão R$ 45 bilhões que seriam destinados à saúde.
O tributo parece se encaixar perfeitamente como substituto da Contribuição Provisória sobre a Movimentação (CPMF) extinta em dezembro de 2007. Mas o governo faz questão de enfatizar que há mudanças entre os impostos. A CSS tem caráter permanente, é destinada exclusivamente à saúde e tem alíquota de 0,1%. Além disso, estarão isentos os assalariados, pensionistas e aposentados com renda mensal igual ou inferior a R$ 3.080. A CPMF era provisória, destinava-se à saúde, à assistência e as previdência sociais, e movimentava 0,38% sobre as taxas. Até dezembro passado, todos contribuíam com a CPMF. Apesar das distinções, diz-se que existe um ponto comum entre os impostos: a fiscalização impede a sonegação da CSS através de cruzamento de dados do contribuinte.
Aparentemente, essas diferenças entre os tributos tentam melhorar a imagem da CSS para ser aceita com maior facilidade. O alvo da Contribuição é, exclusivamente, o Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo com a arrecadação tributária em R$ 327,6 bilhões no primeiro semestre, um recorde, o governo alega que não há subsídios suficientes para a saúde. Um fato que pode se confundir com improbidade administrativa. A criação de um novo imposto parece não ter nexo e nem justificar, visto que a situação da arrecadação tributária cresceu em 2008, batendo recordes. E isso sem a CPMF.
Se aprovada, a CSS entraria em vigor no dia 1º de janeiro de 2009, com R$ 10 bilhões em arrecadação para a saúde. A Câmara dos Vereadores já aprovou a proposta, com 288 votos favoráveis, 124 contrários e quatro abstenções. Com a decisão definitiva, a CSS terá sua constitucionalidade discutida no Supremo Tribunal Federal.
Para o economista Fernando Pires, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), o imposto é uma forma incorreta de solucionar o problema. “A saúde deveria ser uma garantia do Estado, sem usar esse tipo de artifício (tributo)”, alega. Ele não é o único a pensar assim. Entidades brasileiras de renome já entraram em uma mobilização, que envolve abaixo-assinado para que a CSS não seja imposta. “Não CSS”, encabeçada por Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) seção São Paulo, engloba, entre outros, empresários da Fecomércio e até médicos. “O discurso que ouvíamos é que o dinheiro da contribuição era indispensável à saúde e, se a CPMF acabasse, a arrecadação diminuiria. Aconteceu diferente, a CPMF acabou e a arrecadação tributária aumentou. E, agora, com a CSS, mais uma iniciativa do governo veio para onerar ainda mais o cidadão, para a qual estamos bradando um não (...) que vai ecoar por este Brasil inteiro” proclamou D’Urso, na abertura da campanha contra a CSS, no Pátio do Colégio, centro de São Paulo.
A campanha é radical e não entende os motivos de mais um tributo. E justifica com números: até o fim do ano, a arrecadação do consumidor deve chegar aos R$ 80 bilhões, o que significa o acúmulo de duas CPMFs. No total, mais de 50 impostos são recolhidos do cidadão brasileiro, sob os mais diversos aspectos. Não é o suficiente para custear todos os setores e ainda investir? Países como a Suíça têm cargas tributárias maiores do que o Brasil, mas os cidadãos gozam de saúde e educação proporcionada pelo Estado — o que não acontece aqui. A população tem que arcar com plano de saúde, por conta do sistema de saúde local falível, e colocar seus filhos em escolas particulares, em busca de uma educação razoável. Segundo Manoel Lucena dos Santos, fiscal da Receita Federal do Ceará, o Brasil é carente de aplicação devida de imposto. A arrecadação tributária brasileira burla as normas da Constituição Federal, de acordo com o que esta afirma ser o correto quanto à aplicação dos subsídios. “Deveria haver uma justiça fiscal, onde quem ganha mais, contribui mais. Mas isso não acontece, pois o assalariado é quem acaba pagando mais impostos”, avalia. Assim, 75% da população fica de fora da CSS, por receber menos de R$ 3080. “Mas cabe à população cobrar do governo que o novo imposto seja aplicado exclusivamente na saúde”, pontua.

Crescimento econômico
Não é plausível que a CSS surja em um momento de crescimento da arrecadação federal. De acordo com os dados da Receita Federal, a contribuição juntou R$ 327,6 bilhões, crescendo 10,4% no primeiro semestre. Ainda: o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) somou R$ 9,81 bilhões contra os R$ 3,9 bilhões do primeiro semestre de 2007.
A arrecadação reflete o desenvolvimento econômico no Brasil, que já elevou em 14,2% as vendas gerais e aumentou em 14,4% a massa salarial. São fatores como esses que fizeram a arrecadação do Imposto de Importação crescer em 27,6%; o Imposto Sobre Produtos Industrializados - Automóveis em 18,3%; o Imposto de Renda Pessoa Física em 12% e de 20,7% no Imposto de Renda das empresas. A solução mais prática seria administrar os recursos para todas as áreas ao invés de se criar mais um subsídio.
O Brasil vem comprovando um desempenho crescente na economia, com mais compras e maiores resultados no comércio. A situação tende a ser beneficente à maioria, pois comprando mais o cidadão paga mais impostos involuntariamente. Esse seria, para os especialistas, o momento certo para abater os tributos. “Se houvesse uma redução dos impostos, o setor privado economizaria mais e investiria mais”, revela o professor Fernando Pires.
Ele ainda argumenta que “o governo está se importando, cada vez mais, com investimentos e acaba voltando maior parte da arrecadação para esse quadro, esquecendo de algo prioritário, como a saúde”. O professor é parcialmente contra, pois acha que o plano é positivo por envolver a saúde. “Só espero que se destine realmente ao SUS, de uso de todos os cidadãos, e que não seja redirecionado a outros setores”, conclui.
Os próprios médicos parecem contrários ao novo imposto. No dia em que o centro de São Paulo parou para dizer não à CSS, a médica Ivone Capuana, representante da Associação Paulista de Medicina, disse que a CPMF não melhorou a situação da classe e nem da saúde pública. O país apresenta recursos suficientes para desenvolver todos os segmentos, mas não administra devidamente os tributos para que todas as áreas sejam atendidas devidamente. Segundo Manoel Lucena, os tributos são necessários para a sobrevivência de um Estado, mas a gestão “é uma questão de ética, de moral. Se houvesse uma melhor aplicação de tributos, talvez a CSS não fosse necessária”.
O fato é que mais um imposto vem aí e a maioria da população, por não estar dentro do padrão salarial exigido, estará isenta. O Brasil passa por uma fase de protestos de elite, de mobilização contra mais um tributo. Médicos, economistas, empresários, advogados e estudiosos se juntam para dar um basta à incapacidade gestora. A população espera organização e aplicaç ão devidas sem a necessidade de mais e mais impostos. A esperança é que a proposta ainda passará pelo Senado, cujos membros desarticularam o imposto do cheque em 2007. Se aprovada, só o tempo dirá se a CSS funcionará como a CPMF não funcionou.

O que diz o Governo Federal sobre a CSS
Jorge Vasconcellos, assessor do Ministério da Saúde, acha que a CSS pode melhorar a situação que a CPMF deixou deficiente. Mas acredita que apenas o dinheiro não é suficiente. Deve existir uma administração adequada

Fale! Como está a situação do Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que o imposto é voltado exclusivamente ao setor?
Jorge Vasconcellos. O Sistema Único de Saúde completa 20 anos, em 2008, como uma das maiores conquistas da sociedade brasileira. É um sistema inclusivo que está disponível para toda a população. Ao longo desses anos, o SUS obteve vários avanços, como a significativa queda da mortalidade infantil, o reconhecimento internacional do Programa de DST/Aids e do Programa Nacional de Imunização (PNI). No entanto, ainda há desafios pela frente, sendo que dois urgem ser solucionados: a melhoria da gestão no SUS e a regularização de seu financiamento. O SUS precisa de uma fonte de recursos exclusiva, perene, que garanta ao sistema condições de se planejar em médio e longo prazos. O SUS não pode ficar, a cada ano, na expectativa sobre o quantitativo de recursos de que irá dispor. O Congresso Nacional tem uma excelente oportunidade de colaborar para que isso aconteça. Os parlamentares precisam definir uma fonte de recursos para sustentar a Emenda 29, que define o que é gasto com saúde e qual deve ser o compromisso financeiro da União, estados e municípios com o SUS.

Fale! Qual a relevância do CSS? Já que a arrecadação tributária bateu recordes no primeiro semestre, por que mais um imposto?
Jorge Vasconcellos. A criação da Contribuição Social para a Saúde (CSS), se aprovada pelo Congresso Nacional, representará um incremento de R$ 10 bilhões no orçamento para a saúde. A contribuição irá funcionar da mesma maneira que a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), mas com alíquota de 0,1% e destinação exclusiva para o setor.
Os recursos provenientes desta arrecadação serão destinados ao financiamento de uma série de ações do Programa Mais Saúde: Direito de Todos. Na área de Promoção da Saúde, o Programa Saúde nas Escolas poderá atender, já em 2008, a 26 milhões de alunos de escolas públicas com exames médicos, consultas oftalmológicas e avaliações audiológicas, por intermédio do Programa Saúde da Família. O mesmo programa também prevê a distribuição de óculos e próteses auditivas para o mesmo público.
Entre as ações de planejamento familiar, o Ministério da Saúde poderá distribuir pílulas anticoncepcionais, DIUs, diafragmas e outros preservativos para mais 10 milhões de mulheres, o que representará uma duplicação da atual cobertura. Será possível ainda ampliar de 20 mil para 40 mil o número de vasectomias e de 50 mil para 70 mil o número de laqueaduras realizadas anualmente pelo Sistema Único de Saúde.
No âmbito do Programa Saúde da Família, os novos recursos tornarão possível também a implantação de mais 12 mil equipes, ampliando o atendimento de 80 milhões para 150 milhões de brasileiros, o equivalente à 70% da população. O número de agentes comunitários de saúde também aumenta de 225 mil para 240 mil, além de possibilitar a construção de 10 mil novas unidades básicas de saúde em pequenos municípios.
Na área de Atenção à Saúde, estes recursos serão aplicados na construção de 68 novos Centros de Atendimento Oncológico (Cacon), com especial atenção ao tratamento de câncer de mama e de colo de útero. A ampliação do acesso a serviços de atenção especializada também inclui a reestruturação de 300 serviços de hemodiálise em funcionamento no país e a aquisição de quatro mil novos aparelhos. As unidades de cardiologia também aumentam de 187 para 342. O aporte de recursos torna possível ainda a criação de 230 novas unidades de neurocirurgia e 186 de traumato-ortopedia. Poderão ser criados 4.850 novos leitos em unidades de terapia intensiva e o número de transplantes realizados anualmente pode subir dos atual 11 mil para 16 mil.
Na área de prevenção, o Ministério da Saúde poderá ampliar o número de exames para controle de hipertensão e diabetes, dobrando os atuais 50 milhões de exames ao ano, e também incluir novas vacinas no Programa Nacional de Imunizações, como as de Pneumococos e Meningite C, em um total de 38 milhões de doses.
A CSS torna possível ainda investir na finalização de obras inacabadas, na construção de 240 novas unidades de saúde, na reestruturação física de 400 hospitais filantrópicos, na reforma de 1,6 mil hospitais de ensino e na construção de 200 unidades de pronto atendimento (Upas), entre outros investimentos.
O atendimento de urgência e emergência, por intermédio do Samu, poderá ser universalizado, com aquisição de 4,5 mil ambulâncias, 10 helicópteros e 14 ambulâncias para atendimento de populações costeiras e ribeirinhas. Hoje, o Samu cobre uma população de 99 milhões de pessoas. O Programa Farmácia Popular também pode ser ampliado, passando a ter 20 mil unidades espalhadas pelo país, oferecendo 20 medicamentos, ao invés dos oito disponíveis atualmente.
A aprovação da CSS viabiliza ainda a melhoria da gestão do Sistema Único de Saúde, em todos os níveis, com um elenco de medidas, tais como a recomposição gradual dos valores das tabelas de procedimentos do SUS e o aumento dos tetos financeiros dos estados, iniciativa que representa R$ 5,4 bilhões a mais, nos próximos quatro anos.

Fale! Vocês são favoráveis à imposição da CSS?
Jorge Vasconcellos. A questão da CSS não está sendo tratada de forma impositiva. Tanto que é o Congresso Nacional a instância que está discutindo o assunto de maneira democrática.

Fale! Por que não usar os impostos que já temos para aplicar também na saúde? Não seria apenas uma questão de administração?
Jorge Vasconcellos. O SUS tem dois grandes desafios: melhorar a gestão e ter definida uma fonte perene de recursos. É claro que apenas mais dinheiro não é suficiente. O reforço do aporte financeiro deve vir acompanhado de uma melhora na gestão do sistema, para que as verbas se revertam em melhorias na qualidade do atendimento prestado à população.

 


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