Mesmo diante da falta de participação, da inversão de valores e de tantos problemas sociais, muitos encontram tempo e disposição para se dedicar a alguma causa social. Por meio do serviço voluntário, é possível participar de situações de desigualdade e injustiça social. Não para assumir o papel do governo, mas para complementá-lo. O Estado somos todos nós: cidadãos, empresas e governo. Esta é a opinião de Osvaldo Furtado, 39 anos, gerente de vendas direta de uma concessionária de carros em Fortaleza, no Ceará. Formado em Administração de empresas, Osvaldo é voluntário junto às vitimas de acidentes de trânsito na capital cearense. Força de vontade não falta para esse cearense que tem que driblar as 24 horas que o dia oferece, tendo que conciliar trabalho, família, estudo e o voluntariado a que se dedica.
“Somos responsáveis por um mundo mais humano, justo e solidário, menos desigual e com mais oportunidade para todos. De que maneira um indivíduo pode fazer a sua parte? Existem várias formas, mas para que isto venha a se tornar realidade é preciso dar o primeiro passo”, explica o gerente. Ele argumenta que a responsabilidade não é apenas do governo, mas também das empresas, das pessoas e das organizações sociais. “A responsabilidade é de todos nós”.
A história de Osvaldo começou em 2000, quando exercia a função de subsecretário da Secretaria de Desenvolvimento Patrimonial da Prefeitura Municipal de Caucaia. Nunca sofreu um acidente, “graças a Deus”, ou jamais teve que esperar por ajuda de alguém para ser salvo. Sua trajetória como voluntário se iniciou acompanhando as ambulâncias da prefeitura por vontade própria, mesmo sem ter ligação com o trabalho dos socorristas que trabalham no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu/192). Segundo Nilton Lacerda, médico e coordenador do Samu em Caucaia, o Ceará é referência nacional na área de residência médica de urgência e emergência, a segunda melhor do país. O médico fala que a estrutura do SAMU é muito boa, mais ainda falta se consolidar ainda mais no Brasil. E se houver mais pessoas atuando como voluntárias e mais educação no transito muitos acidentes poderão ser evitados. Atualmente, a rede nacional SAMU conta com 130 Serviços de Atendimento Móvel de Urgência no Brasil. Ao todo, atende a 1.066 municípios, totalizando 97.9 milhões de pessoas.
Nilton afirma que o trabalho de voluntário é árduo, cansativo e falta muita ajuda tanto do setor público como do privado. Mas, mesmo diante de tamanho empecilho, o médico-voluntário garante que é muito gratificante ajudar as pessoas em seus piores momentos, tanto na dor como na perda. E afirma que o colega Osvaldo também compartilha com ele do mesmo sentimento de solidariedade. “Ele é um apaixonado pelo que faz”, afirma com admiração Lacerda.
Em sua caminhada auxiliando as pessoas, Osvaldo conta que quanto mais o tempo passa, mais aprecia o ato de ‘salvar vidas’. Mesmo ocupando um cargo de relevância dentro do município, em momento algum ele deixou de ajudar o próximo. “Eu realmente gostava de sair com os socorristas para ajudar as vítimas”, diz. O gerente compara o seu trabalho com uma história popular onde uma andorinha viajava sozinha do mar até uma floresta pegando fogo. Neste trajeto longo e árduo, o passarinho tentou apagar o incêndio carregando gotas de água em seu bico e não desistiu mesmo aparentemente sozinha em seu difícil trabalho. “Pode parecer bobagem, mas o trabalho do voluntário no Brasil é assim. Pode ser uma historia insignificante para muitas pessoas, mas eu sei no fundo o que ela representa de verdade, muita solidariedade ao meu próximo”, destaca o voluntário-gerente.
Na opinião do voluntário, a história em questão pode se tornar verídica, deixando a semiótica e as metáforas de lado e enveredando por personagens da vida real que procuram mudar uma realidade escassa de magia e fantasia. “Na prática, é complicado, porque as pessoas não encontram tempo e estão inseridas em uma sociedade cada vez mais rápida, ambicionando altos cargos e poder”, conta.
Após ter encerrado sua gestão na prefeitura, Osvaldo começou a fazer plantões durantes fins-de-semana e feriados na Rodoviária Federal. E desde então já se passaram oito anos de atividade. Não foram poucas as vezes que abdicou das noites e feriados ao lado da família para fazer plantão na Rodovia Federal. E por ter realizado este trabalho tantas vezes, ele já conhece os horários de pico e a estatística de quem se acidenta mais. “Tem muito motociclista sem capacete, atropelamento. E as pessoas fogem, não param para ajudar. É um absurdo. É uma vida que está ali”, diz.
O voluntário comenta ter presenciado e ajudado em mais de 30 acidentes. “Eu apenas amenizo a situação. Se tem uma hemorragia, eu estanco. Se tem que mobilizar a vítima, eu faço também. Mas não posso fazer mais que isso”, afirma. E sem falar no principal fator nessas horas difíceis para quem está ferido no meio de ferragens: o calor humano, palavras de consolo e apoio são fundamentais para qualquer pessoa em um acidente. Nilton assegura que esse trabalho é essencial, pois ajuda a estabilizar a situação do paciente que vai chegar até ele.
| ANJOS DO ASFALTO |
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Nos últimos anos, as Organizações Não Governamentais (ONGs) vêm promovendo de maneira efetiva o desenvolvimento social. As inúmeras experiências realizadas pelas ONGs, em suas diversas áreas de atuação, contribuem para a construção de novos padrões culturais, democráticos e éticos em nossa sociedade.
Em relação à ajuda filantrópica nos casos de acidentes de trânsito, a Organização Não Governamental Anjos do Asfalto, nacionalmente conhecida e com unidades nas mais diversas regiões brasileiras, desenvolve um papel fundamental ao salvar vítimas de acidentes rodoviários. Um exemplo disto é a atuação da Anjos do Asfalto na Paraíba, criada em 2000, que vem ganhando força com coordenações em três cidades e planos de ampliação. Eles objetivam salvar vidas, atuando nas áreas de trânsito, atendimento hospitalar, meio ambiente, defesa civil e na doação de sangue.
No caso da Paraíba, a associação trabalha nas comunidades adotando um viés educativo, em conjunto com o Conselho Estadual de Trânsito, contando também com a participação do Núcleo de Estudos e Ações em Urgência e Desastres da Universidade Federal da Paraíba – UFPB.
Pessoas são treinadas e capacitadas nas áreas de atendimento pré-hospitalar e primeiros socorros, o que as habilitam para salvar vidas nos mais diversificados tipos de acidentes. Vale enfatizar que todo o trabalho é voluntário e sem fins lucrativos e que cerca de 500 pessoas já adotaram essa idéia ao se cadastrarem na Ong. Ela conta com um banco de sangue virtual com mais de 2 mil doadores, cujos cadastros são sigilosos, mas, em caso de emergência, os números estarão disponíveis caso a doação seja necessária.
Além dos voluntários, a Anjos do Asfalto conta com parcerias para se desenvolver e poder exercer seu trabalho. Na Paraíba, contam com a Defesa Civil para ministrar cursos e com a UFPB, onde existe um convênio para trabalhar junto ao Núcleo de Desastre da Universidade. |
Pensando no futuro
Osvaldo leva o voluntariado a sério, tanto que fez cursos de socorristas em Caucaia, durante o período em que trabalhou lá, e acompanhou o curso dos bombeiros do Paraná, referência brasileira de sucesso e empenho, consagrado com prêmios - inclusive nos Estados Unidos. A intenção dele é criar uma associação mais formal, oficial, sem fins lucrativos, inspirada no Anjos do Asfalto, uma Organização Não Governamental (Ong) de São Paulo que tem estrutura e apoio para salvar vidas.
Nilton é um provável sócio de Osvaldo, mas afirma que isso é um grande sonho e que ainda está na teoria. “Queremos divulgar, espalhar voluntários, conseguir apoio para isso”, completa. Segundo o coordenador do SAMU, eles querem seguir o exemplo dos EUA, onde “Todas as quadras de basquete têm um cardioversor (aparelho cardíaco), caso o jogador passe mal. Qualquer pessoa ali é instruída e sabe como usar. Queremos capacitar voluntários”, diz.
A família de Osvaldo apóia e ajuda quando ele faz o atendimento de primeiros socorros nas vítimas nas estradas. Ele fala emocionado que o seu trabalho já gerou frutos de conscientização em sua filha. “Ela garante que quer ser socorrista quando estiver maior”, explica o gerente. De todos os acidentes, ele lembra de um, em especial. “Eu estava voltando de Juazeiro do Norte quando vi um carro em má situação. A vítima estava presa entre às ferragens, machucada, mas conseguimos salvá-la”, relembra. Ele sempre leva seu quite de primeiros socorros, que já ajudou muita gente a continuar vivendo, apesar de assegurar que não mantém contato com nenhuma pessoa que já ajudou. “Eu faço a minha parte, que é socorrer. Depois não tenho mais notícia”, afirma.
Para oficilializar o volunatriado, Osvaldo colocou suas idéias no papel e, com a ajuda do médico Nilton, pretende criar uma Ong. O gerente acredita que o projeto deverá sair em quatro meses. A ambulância já foi providenciada, mas ainda faltam equipamentos. “Só usarei em casos emergenciais. Precisamos de uma maior”, assegura.
Osvaldo pretende adquirir um terreno na CE 090, (por meio de doações) estrada de Caucaia, para sediar a base de sua associação e fazer plantões. O objetivo principal de Osvaldo é reunir pessoas, socorristas para poder fazer escalas de plantões e colocar a associação para funcionar. “Ser cidadão não é apenas ter seus direitos legais atendidos ou clamar incansavelmente por eles. Ser cidadão também é arregaçar literalmente as mangas e ajudar aqueles que precisam”, exalta o voluntário.
| A HISTÓRIA DO VOLUNTARIADO |
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Conhecer a história do trabalho voluntário é importante para que as pessoas possam acompanhar a evolução deste conceito, que partiu de um caráter mais assistencialista para o outro, voltado principalmente ao exercício da cidadania. É a identificação com este conceito atual que proporciona um trabalho mais assertivo e eficaz.
Em um recente estudo, realizado na Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, definiu-se o voluntário como ator social e agente de transformação, que presta serviços não remunerados em benefício da comunidade. A pessoa voluntária doa seu tempo e conhecimentos, realiza um trabalho gerado pela energia de seu impulso solidário, atendendo tanto às necessidades do próximo ou aos imperativos de uma causa, como às suas próprias motivações pessoais, sejam estas de caráter religioso, cultural, filosófico, político, emocional.
No Brasil, a prática começou no século XVI, quando houve uma associação da Igreja Católica com a área da saúde, surgindo as chamadas e ainda atuantes Santas Casas, um modelo seguido de Portugal. O trabalho era feito por mulheres, e a partir da década de 1930, o Estado desenvolveu políticas públicas voltadas à assistência social, atuando nas instituições filantrópicas. Nos anos 80, com o advento do neoliberalismo, diminuíram-se os investimentos na assistência social, agravando ainda mais as desigualdades e problemas sociais. Nesta época, um novo voluntariado surge como resposta a essas mudanças.
O trabalho vem crescendo nos últimos 20 anos, tanto em consciência quanto no número de voluntários. Com a chegada da década de 90, o trabalho voluntário cresceu e ganhou força com a construção do Programa Voluntários, da Comunidade Solidária, no ano de 1996, constituindo, em 16 estados e no Distrito Federal, mais de 30 Centros de Voluntariado.
Para nortear o caminho legalmente no país, o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei nº. 9.608/98 em fevereiro de 1998. Atualmente, o trabalho voluntário é tido como forma de ação cívica que tem como objetivo a mobilização de pessoas, empresas e organizações visando resolver problemas sociais, assegurar direitos, por meio da responsabilidade conjunta do Estado e da sociedade civil, representada pelos cidadãos, pelas Organizações Não Governamentais (ONGs), fundações e empresas.
Líderes de vários países da Organização das Nações Unidades (ONU), inclusive o Brasil, firmaram um acordo para que até o prazo de 2015 possam ter cumprido oito ações sociais para acabar com as injustiças sociais, tais como: Erradicar a extrema pobreza e a fome; Atingir o ensino básico universal; Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; Reduzir a mortalidade infantil; Melhorar a saúde materna; Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças; Garantir a sustentabilidade ambiental e Estabelecer parcerias para o desenvolvimento. |
Mudança de valores
Várias iniciativas estão sendo realizadas em âmbito nacional no sentido de mobilizar as pessoas para essa questão. Existem espalhados por vários estados brasileiros os chamados Centros de Voluntariado (CVs), que atuam no recrutamento de pessoas interessadas em trabalhar voluntariamente em uma entidade social. Há, também, uma página na Internet que cadastra cidadãos que queiram contribuir com os seus conhecimentos, o www.filantropia.org.
Existem, atualmente, cerca de 19.7 milhões de pessoas que atuam como voluntárias no Brasil. Estas pessoas colaboram com aproximadamente 330 mil entidades filantrópicas espalhadas por todo o território nacional. É evidente que há diversos tipos de trabalho voluntário. Há pessoas que doam dinheiro ou alimento, em um puro ato de assistencialismo, até aquelas que possuem uma formação específica e utilizam os seus conhecimentos em prol de uma determinada entidade.
Estes números apresentados estão bem distantes do ideal que o Brasil precisa. Nos Estados Unidos, existe por volta de 100 milhões de voluntários, ou seja, 36% de uma população de 270 milhões de habitantes.
Ser voluntário requer uma sensibilidade e uma consciência que devem estar sempre presentes naquele que deseja fazer algo pelo seu país. Assim, a educação solidária será cada vez mais forte nos meios sociais, mostrando que o voluntário é um importante agente de transformação social, principalmente em países tão desiguais como o Brasil. E esta visão tem que ser trabalhada nos jovens brasileiros. Segundo dados dos especialistas das organizações, somente 7% dos jovens brasileiros participam de alguma atividade voluntária, enquanto nos Estados Unidos essa porcentagem chega a 62%. Pesquisas de opinião mostram que 54% dos jovens brasileiros querem ser voluntários, mas não sabem como fazer para ajudar.
Há inúmeras maneiras de participar dessa transformação e cada um pode escolher a sua. Há vários meios para tal, como por exemplo, fazer o recolhimento seletivo de lixo; votar e ajudar a eleger políticos que se preocupam com as questões sociais; fiscalizar e cobrar políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do coletivo; manter uma postura ética ao não pagar propinas, combater a corrupção nos locais de trabalho e convívio social; fiscalizar o cumprimento das promessas políticas e a aplicação do orçamento; denunciar, ainda que anonimamente, o desperdício de dinheiro público por parte de políticos, empresários e funcionários públicos.
Por meio do estímulo ao serviço voluntário, a sociedade ganha uma melhoria do nível de formação, desenvolve lideranças, estimula a solução de problemas para as necessidades das comunidades, articula e amadurece a sociedade civil e constrói a cidadania com base na cooperação, solidariedade e compromisso. Muitos podem achar que isso tudo é um sonho distante, mas não é impossível.
Para participar é só dar o primeiro passo!
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