TERRA TREME
NO
CORAÇÃO DO CEARÁ |
São raras as informações consistentes sobre os recentes tremores de terra na Região Norte do Ceará. O Ceará não tem tecnologia para monitorar o problema, e a Defesa Civil é órgão meramente reativo. Daí, essa situação gera lendas, misticismo e abre espaços para novos profetas que anunciam o fim dos tempos
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Desde o dia 28 de janeiro, os municípios próximos a Sobral (a 240 km de Fortaleza) sofrem abalos sísmicos, causando danos nas estruturas das casas próximas ao epicentro, no distrito de Jordão. Apenas no dia 29 de fevereiro, foram 266 tremores, tendo o maior atingido 3.9 na escala Ritcher. Esses fenômenos são explicados por uma falha geológica e já parecem comuns na região. Não é a primeira vez que acontecem e, segundo especialistas, está longe de ser a última. Quando a população já sentia um certo “alívio”, após um mês sem grandes abalos, no dia 5 de abril, um tremor de 3.9 graus voltou a assustar os moradores de Sobral.
A assistente social Ana Lídia Siebra trabalha em uma indústria no município e relata que a situação na cidade já melhorou, mas, passados dois meses desde os primeiros tremores, a sensação de medo ainda é muito presente, principalmente por desconhecimento quanto aos estragos que os terremotos podem causar. “Nos primeiros dias, atendemos um caso de uma jovem que, após passar a noite sem dormir preocupada, sofreu um caso de aborto espontâneo”, conta.
Os moradores acreditavam que a terra seria engolida pelos tremores, e até uma ameaça de um vulcão em erupção chegou a apavorar a população. O agente agrário Rogério de Moura Mendonça, 41, afirma que, no começo, todos queriam ir embora. “A defesa civil veio aqui (na região do Jordão) e explicou que era um fenômeno da natureza. Psicólogos vieram para cá ajudar as pessoas, então, elas se acalmaram mais, começaram a voltar para casa”. De acordo com Rogério, o governo pretende colocar, ainda esse ano, 10 sismólogos na região, para que fiquem monitorando a área permanentemente.
Segundo dados da Defesa Civil, somente no Ceará, quase 20% dos municípios já registraram tremores de terras, principalmente nas regiões Norte e Leste do estado. Dentre eles, o maior registrado no Nordeste, atingindo 5.2 na escala Richter, em novembro de 1980. O tremor conhecido como “O terremoto de Pacajús” destruiu parcial ou totalmente mais de 400 casas. O chefe do laboratório de Sismologia da Defesa Civil do Ceará, Francisco Brandão, destaca, porém, que os estragos poderiam ser maiores se o epicentro estivesse próximo a centros urbanos. “O fato de um tremor atingir um alto valor na escala Ritcher não é, necessariamente, delimitante para calcular os estragos do mesmo. Os efeitos em Jordão foram bem maiores que, por exemplo, no centro de Sobral. Nesse caso, é usada uma outra escala para medir os efeitos”, afirma.
Francisco Brandão explica que, embora o Ceará hoje represente o estado que mais apresenta atividades sísmicas no Nordeste, o fato de o Brasil se encontrar no meio de uma placa tectônica reduz o risco de se ter terremotos de grandes proporções. “No Brasil, tanto a atividade sísmica é menor do que a dos países da região dos Andes, quanto as suas proporções em relação àqueles causados pela movimentação das placas tectônicas. Mas é claro que podem ocorrer e é normal que essas atividades ocorram”, diz. Durante os sismos, a população deve se proteger embaixo de mesas, procurar abrigos seguros e não ficar em portas e janelas.
Apesar do pavor provocado pelos abalos, os tremores de terra que afetam nosso território normalmente são superficiais e possuem baixa magnitude, são sentidos em áreas restritas e quase nunca produzem danos materiais graves. Vale dizer que de um ponto para o outro a potência é multiplicada por até 30 vezes. Se um tremor for de magnitude 4, caso chegue a 5, a intensidade do efeito é multiplicada por ate 30 vezes. A escala Ritcher vai até o nível 9, se chegar ao 6, o abalo é considerado de alta intensidade.
No Brasil, o maior sismo já registrado, com magnitude 6.6, ocorreu no Mato Grosso, em 31 de janeiro de 1955. Um mês depois, outro tremor, com magnitude 6.3, aconteceu no oceano Atlântico, a cerca de 300 quilômetros do litoral do Espírito Santo. Depois disso, pelo menos sete outros eventos, com magnitudes variando de 5.0 a 5.5, ocorreram em diferentes partes do país. É bem provável que se algum desses tremores tivesse epicentro próximo de uma grande cidade, teria ocasionado danos significativos. Sabe-se que não é preciso que um sismo atinja magnitude elevada para tornar-se destrutivo. A localização do epicentro, a profundidade do foco, a geologia da área afetada e a qualidade das construções são alguns dos fatores determinantes do poder arrasador (intensidade) de um terremoto.
Para que se tenha uma idéia da proporção dos abalos sísmicos já ocorridos no Ceará, é necessário que se informe o seguinte: na linguagem científica, os sismos com magnitude de até 1.5 são denominados de microtremores e, na maioria das vezes, não são sentidos pela população.
Apesar de não ser alarmante, o nível de sismicidade brasileira precisa ser considerado em determinados projetos de engenharia, como centrais nucleares, grandes barragens e outras obras de porte. É necessário dar atenção especial ao padrão das construções situadas nas áreas de maior risco sísmico, preocupando-se com a qualidade das edificações para garantir maior segurança contra os abalos sísmicos. Mas a pergunta sobre quando devem parar os tremores fica sem resposta.
Um terremoto é causado quando existe um grande esforço das placas tectônicas. Essas placas são pedaços menores que fazem parte da camada mais superficial da Terra — litosfera — e se movimentam lentamente, ocasionando um contínuo processo de esforço e deformação nas grandes massas de rocha. Quando o esforço é grande e supera o limite de resistência da rocha, esta se rompe, originando uma falha geológica, e acontece o terremoto. Parte da energia acumulada é liberada sob a forma de ondas elásticas, que podem se propagar em todas as direções, fazendo o terreno vibrar. Esse processo é o causador da maioria dos terremotos. Normalmente, a ruptura das rochas só acontece em profundidade. Nos sismos menores, é comum o terreno se deslocar somente alguns centímetros ao longo da falha geológica. |