Nada mais importante para a democracia que o confronto direto entre candidatos, o acirramento do debate, o olho no olho. Fortaleza, em 2008, abriu mão desta oportunidade por pouco mais de 1.900 votos, que era o que faltava para um confronto em segundo turno. A prefeita Luizianne Lins poderia até ter ganho em seundo turno, como tudo indicava, mas pelo menos teria que ter prestado contas de várias promessas de suas campanha anterior que não saíram do papel. Seria a oportunidade do debate direto, que parecia tanto incomodar a prefeita. Sua primeira estratégia de defesa era a de colocar-se no lugar de vítima, balançar com a cabeça negativamente e, depois, na réplica, desqualificar os oponentes. Vimos, em Fortaleza, uma campanha medíocre, sem acirramento, sem oposição e com um eleitor apático, meio massa de manobra e objeto, em alguns segmentos, da avassaladora máquina municipal. A mesma máquina que colocou o Bolsa Família na campanha eleitoral, estimulando um terrorismo ao insinuar que só um aliado direto do presidente Lula, no caso a prefeita Lins, poderia dar continuidade ao programa.
Trata-se, aqui, de uma aposta na desinformação do povo. O que, na verdade, é fato. Um povo pobre, formado, em sua maioria, por analfabeto funcionais, vulnerável aos problemas estruturais de segurança e saúde, que está suscetível a este tipo de desiformação do mesmo modo como a nossa classe média nada sabe sobre o sistema público de saúde. Um hospital público é sempre um cenário do inferno, mas, para quem não tem parâmetro de qualidade, qualquer coisa, o mínimo que seja, já está bom.
Foi uma campanha medíocre. Fortaleza merecia pelo menos um segundo turno. Mas sequer buscou isso. Sucumbiu ao canto da sereia das promessas reeditadas e da computação gráfica. A prefeita se reelegeu sem fazer campanha, pelo menos no sentido tradiconal do que vimos no Rio, em São Paulo, nas grandes capitais. Apareceu raras vezes, no ponto alto de um carro de som, protegida pelo seu séquito, mas se omitiu de fazer um corpo a corpo nas ruas, junto às pessoas de quem diz cuidar.
Não mostrou a cara, não foi aos debates, exceto aos da televisão e em um, na TV Diário, ameaçou sair no meio, enebriaba pelas acusações diretas da senadora Patrícia Saboya sobre o uso do cartão corporativo.
Luizianne queria ir embora, alegando baixaria. Como foi embora do estúdio da TV Cidade. No dia 5 de setembro, a prefeita estava agendada para um entrevista ao vivo. Apareceu lá meia hora antes mas, antes do programa ir ao ar, ao vivo, pediu licença para sair e sumiu.
Não foi a nenhum debate em universidades, nem a fóruns da sociedade civil. Não fois aos debates na Universidade de Fortaleza, na Universidade Federal do Ceará, na Universidade Estadual. Apareceu numa coletiva ao lado do ministro da Saúde visivelmente afetada por algum tipo de excesso físico. Não foi ao fórum das centenas de mães que reivindicavam condições de salubridade nas poucas creches de Fortaleza.
Mas o que realmente incomodou a prefeita nos debates foi perguntas relativas à não transparência sobre o cartão corporativo. Por que? O que tem neste cartão? Onde e como que ele foi usado? Por que este tema incomoda tanto a prefeita? Por que a prefeita pediu segredo de justiça num processo que pede a transparência nas contas do cartão? Estamos diante de um problema de Estado? A segurança nacional está em jogo?
Claro que não. Tudo estaria resolvido na simples decisão de tornar público o que deve ser público. Afinal, com certeza, não estão alí valores exorbitantes que extrapolem o bom senso.
Fortaleza não pode ser administrada pela truculência ou pelo popoluismo. É para desnudar a personalidade dos políticos que a campanha eleitoral se constitui em importante momento de politização do voto e da democracia. Porque no confronto entre candidatos, as cobranças sobre o que foi prometido e não cumprido acabam sendo um importante argumento a favor da verdade.
O povo deu mais quatro anos para a prefeita e precisa ser melhor tratado, porque o discurso de cuidar das pessoas — uma falácia retórica eficaz na propaganda — não pode sobreviver a um segundo mandato.
Não são poucos os ex-aliados da prefeita que falam com detalhes de ineficiência de sua gestão. Secretários que não são ouvidos, planejamento que não existe.
Uma situação que precariza os resultados sociais. Não se pode enganar tanta gente o tempo todo. Setores da mídia impressa se deixam levar por terem seus interesses comerciais atendidos, setores do empresariado são sócios do negócio público, e a maioria da população está com medo de perder o Bolsa Família e de ver o preço de passagem de onibus subir.
Bem, sobre o Bolsa Família, trata-se de um programa federal. Quanto à passagem de ônibus, vamos dar um crédito a prefeita.
Outro fenômeno que se acentua a cada eleição é a ditadura das pesquisas de intenção de voto. Elas acabam dando o tom da campanha e os institutos parecem não se importar com a disparidade de números, até porque todos ficam impunes. Nenhuma pesquisa pode ser aferida exceto aquela de boca de urna. E, mesmo esta, erra. Como aconteceu agora em Belo Horizonte.
Em Fortaleza, também apareceram números diferentes no dia da eleição. Na capa do jornal Diário do Nordeste, a manchete “Indefinição sobre 2o. turno”, baseada em pesquisa do Ibope, abria a perspectiva para um segundo turno em Fortaleza. Considerando só os votos válidos, aqueles que expurgam os nulos, Luizianne aparecia com 48% das intenções de voto, Moroni com 28% e Patrícia Saboya, com 14%.
Já no jornal O Povo, a manchete exprimia um estado de espírito da própria cobertura, não haveria segundo turno. A manchete “Pesquisa indica decisão no 1o. turno” mostrava Luizianne com 53% dos votos válidos, Moroni com 24% e Patrícia com 16%. O jornal informava que a margem de erro da pesquisa era de dois pontos percentuais o que daria, na pior das hipóteses, 51% dos votos válidos para a prefeita, eliminando as chances de segundo turno.
O Ibope ajustou sua pesquisa na boca de urna.
Ninguém se explicou.

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