OFICIALMENTE, Fortaleza completou 282 anos no último 13 de abril. Mas há quem defenda que a data é um grande equívoco. “Omitir 122 anos da Memória de Fortaleza é um crime de lesa capital.”, como afirma o historiador Adauto Leitão. Ele acredita que a cidade foi erigida no dia 25 de julho de 1604, ou seja, na tese, ela teria 404 anos. Este é o dia em que o Forte de Santiago foi erguido à margem direita do Rio Ceará. “Conceitualmente, o Marco Zero, porque é a nossa primeira edificação no conjunto que incluiu depois a Vila de Nova Lisboa.”
A literatura Histórica confirma tal existência e, na cronologia militar, consta o primeiro forte em 1604. “O contexto do Marco Zero envolve muitos elementos, além de uma imediata referência religiosa, pois existiram raças e culturas que interagiram no processo rico de construção da cidade”, pondera. Em entrevista à Revista Fale!, o historiador expõe seus motivos e sua tese pelo resgate histórico da cidade.
Fale! Que data o senhor acredita ser o dia do nascimento de Fortaleza?
Adauto Leitão. 25 de julho de 1604, quando efetivamente é datado o Forte de Santiago, erigido à margem direita do Rio Ceará. Conceitualmente, o Marco Zero, porque é a nossa primeira edificação no conjunto que incluiu depois a Vila de Nova Lisboa. A literatura Histórica confirma sua existência e na cronologia militar consta o primeiro forte em 1604. O dia 25 é universal, consagrado ao Apóstolo Tiago-maior, que, na tradição Ibérica católica, o litúrgico dava a razão onomástica. O contexto do Marco Zero envolve muitos elementos, além de uma imediata referencia religiosa, pois existiram raças e culturas que interagiram no processo rico de construção da cidade.
Fale! Qual a diferença histórica das duas datas?
Adauto Leitão. A diferença é muito significativa. A Lei que estabelece o 13 de abril de 1726 como de aniversário de Fortaleza buscava uma efeméride, embora omissa na justificativa Histórica. O fato diz respeito à elevação da Vila no contexto de disputa de poder com Aquiraz, que foi o restabelecimento político de Fortaleza. Os documentos da época atestam que mesmo a tentativa de instalação de uma Câmara no Iguape, em 1700, não foi aceita pelo Governador Geral de Pernambuco, Fernão de Mascarenhas de Alencastro, que mandou instalar a Primeira Câmara à margem do Rio Ceará. De concreto, foi como um reconhecimento que ainda naquele momento a Barra do Ceará mantinha um status de importância no cenário político da colônia. A razão questionável é que tivemos uma Câmara Municipal com seu primeiro ciclo Legislativo de 1701 a 1708 funcionando na Barra do Ceará – isso conta 300 anos em 2008. Nada disso teria acontecido caso não houvesse uma herança do Marco Zero de Fortaleza na Barra do Ceará, onde tudo começou com 404 anos. A visão macro da Cidade faz reafirmar nossa condição de metrópole no século XXI e do desafio para o futuro.
Fale! Que mudanças no contexto histórico de Fortaleza acontecerão caso a cidade passe a ter 404 anos?
Adauto Leitão. O Resgate de sua Memória Étnica e Histórica – Patrimônio maior de um Povo, depois se apresenta Fortaleza como uma das principais capitais construtoras do Brasil com mais de quatro séculos. É bom lembrar que fizemos parte das Capitanias, embora mais jovem, com 404 anos. Na tradição cultural, quanto mais antiga a cidade é, mais importante no mundo. O trade turístico deveria aprender a valorizar este poder simbólico de mercado, e ainda temos um diferencial porque comemoramos em julho, que é muito atrativo por motivo das férias escolares e do verão. Imagina a renda da cadeia produtiva do setor de serviços e o comércio que é a vocação primeira de Fortaleza. . A diversidade de uma cidade é uma riqueza para mostrar. Penso que melhor do que dizer “4ª capital em numero de habitantes”, mas com desigualdade gritante, é melhor dizer: “capital com 404 anos”, com oportunidades de desenvolvimento, com renda e justiça social para a maioria. É também uma oportunidade altamente positiva de compensação à Barra do Ceará – órfã de políticas públicas. O Executivo municipal deve esta mea culpa à Barra do Ceará.
Fale! O fato do abandono do forte em 1607 (três anos após o seu levantamento) não influencia a veracidade da idade de Fortaleza oficial?
Adauto Leitão. Isso é uma “propaganda enganosa e requentada” dos anos 60 contrar a Barra do Ceará. Sempre houve habitantes à margem do rio Ceará. Valorizo e gosto também do Centro Histórico, da Aldeota Clássica, etc. Mas permaneço onde sempre estive, defendendo o Marco Zero de Fortaleza na Barra do Ceará. A pesquisa científica, à luz dos documentos para ampla divulgação, e a imprensa mais madura e profissional podem hoje levantar o nível do debate, antes de um conhecimento restrito. O Projeto Resgate abriu para academia o Arquivo Histórico Ultramarino-AHU, de Lisboa, e os centros de documentação brasileiros podem facilitar o conhecimento do cotidiano das capitanias coloniais ao público. Na Universidade de Campinas (Unicamp), como exemplo de excelência, resgatei o pedido de Soares Moreno de uma Imagem de Nossa Senhora para a Barra do Ceará (da Assunção). Foi possível comprovar a existência da Câmara Municipal, desde 1701, com trabalhos legislativos, e uma disputa ferrenha entre Aquiraz e Fortaleza. Outras fontes dos Diários de Soares Moreno e Matias Beck comprovam uma Vila povoada à margem do rio Ceará. Houve um recuo momentâneo por conta da seca, questão de meses em 1607, quando da triste retirada de Pero Coelho. O mérito maior do açoriano Coelho é ser o primeiro empreendedor ao edificar o Marco de Fortaleza e colocá-lo no mapa mundi, demarcando o território desde a Barra do rio Ceará até o Mucuripe. De acordo com outro relato de época, do Pe. Luis Figueira (1707/08) na sua “Relação”, havia a presença humana acima do Morro de Santiago – sítio histórico da Barra no qual encontramos vestígios arqueológicos comprovados pelo NUTEC e UFC. A massa miscigenada sempre esteve presente na Barra, aí cai por terra a história de “povoamento só no Centro”. Por exemplo, consta a presença negra para trabalho e reprodução com fins de povoamento desde 1611 na Barra do Ceará.
Fale! Algumas provas da existência de Fortaleza há 404 anos já foram relatadas. O que falta para esta data se tornar oficial?
Adauto Leitão. Falta decisão política. Uma votação na Câmara, porque inclusive já houve todos os tramites técnicos. Como base legal e legislatura apropriada, serve também de parâmetro o que a Câmara Municipal de São Paulo, que definiu como aniversário da capital o seu Marco Zero, possuindo 458 anos comemorados, levando em consideração “os primeiros muros do Colégio São Paulo” e não quando se estabelece um Legislativo municipal à época colonial. É interessante que a Prefeita Marta Suplicy (PT) foi quem mais festejou o 25 de janeiro. No petismo paulista, existe respeito ao marco inicial, até porque “ser contra” é muito pouca visão da História e nem se fala de visão pública.
Fale! Existe algum prazo para aprovação da nova data?
Adauto Leitão. A História é eterna. E a Memória da Barra do Ceará nunca se apaga e vem de muito longe. Mesmo que se tenha que viajar para outros estados ou países, as referências do Marco Zero estão ao dispor da pesquisa. Ainda é possível omitir dos livros, museus - no Museu do Ceará não se encontra nada da Barra à mostra, nem mesmo o Rio Ceará), etc. Hoje, existe uma massa crítica de estudo e opinião da cidadania que comenta e pressiona sobre o processo de votação. Os jornalistas me perguntam muito. Na mudança da Lei, vamos resgatar a nossa Memória. Será uma revolução sem precedentes e um grande avanço econômico para Fortaleza. O ideal é que a Câmara vote neste 2008, quando se comemora em 10 de outubro o seu Terceiro Centenário. Como tudo, a “Casa do Povo” nasceu na Barra.
Fale! Quem apóia a tese defendida pelo senhor?
Adauto Leitão. Existe uma massa de moradores da Barra do Ceará que incentiva a luta e faz-me acreditar que o retorno social da pesquisa é o resultado mais positivo de qualquer investimento no estudo. Familiares, amigos e outros pesquisadores que trabalho de forma interdisciplinar, de varias áreas e até de outros estados, com os quais troco idéias, acompanham a evolução dos acontecimentos. Com professores da rede pública principalmente, a quem não me nego em trocar informações um só instante e participar de aulas temáticas e debates, como se diz: “é o saber e aprender também”. Eu sou muito grato à mídia por abrir espaços generosos e, como se sabe, é o canal do século XXI para informar e formar opinião de qualidade.
Fale! Como o senhor avalia a vida cultural de Fortaleza nos dias atuais?
Adauto Leitão. Humor é excelente pela natureza do cearense: moleque. Em termos de opções privadas, é boa no quesito música. O Teatro está muito carente, não por atores e companhias locais, mas porque não existe incentivo. As “Peças do sul” só acontecem na Unifor. O centenário do início das construções do Theatro José de Alencar “passa longe” – salvo Oswaldo Montenegro. A cultura popular – carnaval, maracatu e outras manifestações – vive em estado de “mundiça”.
Fale! Como o senhor observa a estrutura sócio-ambiental da cidade?
Adauto Leitão. Observo um crime ambiental a cada dia. A poluição visual é gritante, inclusive com placas do Executivo por toda parte. Fica difícil defender “a cidade limpa”, como o exemplo de São Paulo. É curiosa certa postura de ambientalistas. A APA (Área de Proteção Ambiental) do Rio Ceará não parece uma agenda de primeira. Fala-se muito do Cocó, às vezes parece mais política partidária do que meio ambiente. O rio Ceará é o único rio navegável de Fortaleza e merece proteção constante. Existem atividades a serem aproveitadas para gerar renda, como a pesca artesenal e o turismo ecológico. A “intelectualidade” tem que saber que o lado oeste tem História e Meio Ambiente. Para a nova geração, “a Barra é cult”. Outra curiosidade, em 2001 o Sistema Verdes Mares realizou a campanha “Eleja Fortaleza”, para ícones turísticos e históricos da cidade, e não havia nada da Barra do Ceará: pôr-do-sol, rio Ceará, etc. Decidimos eleger o Morro de Santiago – no final da campanha, sem clipe e jingle –, saímos da opção “em branco” para 70.126 votos e conquistamos um lugar no podium. Mantive a postura defendo a preservação do Morro, local onde, escavando com populares, encontrei os artefatos das edificações originais. Em fevereiro de 2008, após as descobertas comprovadas, solicitamos à Regional I e à Funcet o pedido de tombamento do Morro e, na seqüência, para o IPHAN em três quesitos: Patrimônio Histórico, Paisagístico e Iconográfico. Aguarda-se conclusão e tombamento definitivo.
Fale! Quando começou o interesse pela história de Fortaleza?
Adauto Leitão. Começou na adolescência, por causa da usina de algodão Sambra, situada no Município de Caucaia. Eu morei uma temporada no Conjunto Tabapuã, o que permitiu entrar em contato diretamente com índios Tapebas e ainda de conhecer a riqueza do Povo do Rio Ceará, da sua historicidade e da memória oral. No ano de 1988, segui para Brasília na caravana para ver a abertura da Constituinte, viajando ao lado do meu grande amigo Cacique Alberto Tapeba. De outra maneira, estudei com padres holandeses e franceses Lazaristas do Colégio São Vicente, em Antônio Bezerra, e do Seminário da Prainha, que me deram bases éticas e morais. O destino me levou a outros lugares e a comprovar materialmente a História de Fortaleza em Lisboa, Madrid e Amsterdã, dando conta da presença dos seus atores na Barra do Ceará. |