Francisco Pinheiro, vice-governador
A POLÍTICA DA PALAVRA
Francisco José Pinheiro, vice-governador low profile do governo Cid Gomes, é a cara do PT no governo do Estado, resultado de uma aliança vitoriosa com o PSB que deverá ser reprisada nas eleições 2010. Professor Pinheiro, 55, doutor em História Social pela Universidade Federal de Pernambuco e professor da Universidade Federal do Ceará, é dono de uma trajetória política que teve início no movimento sindical, e foi um dos principais nomes na criação do diretório do PT no estado. Aqui, fala também de sua origem no sertão cearense, que o marcou pela tradição da palavra, traço que, garante, Cid Gomes também possui, o que faz da parceria entre os dois um sucesso no governo. Por Luís-Sérgio Santos

O VICE-GOVERNADOR DO CEARÁ, FRANCISCO PINHEIROé um discreto personagem da cena política cearense e se conduz assim a ponto de receber do governador Cid Gomes elogios que o consolidam como o vice ideal. Um outro ponto marcante na relação dos dois é o respeito à palavra. “O governador, eu diria, tem uma marca muito forte do sertanejo como eu, é uma pessoa de palavra. Quando ele faz um acordo, ele é muito rigoroso no cumprimento. Isso nos identificou muito”, reforça Pinheiro. Ele lembra que, seus avós, no sertão, não assinavam documento. “A palavra é fundamental”, diz. “O governador é uma pessoa que quando ele afirma alguma coisa, você pode ficar completamente despreocupado que ele cumpre. Agora se ele disser que não dá, também, não dá.” O antigo sindicalista é amigo pessoal e aliado da prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, que acredita estar passando por um momento de melhoria da sua gestão, hoje, desgastada por falta de recursos, afirma. Pinheiro aposta na cautela ao falar do impacto que a disputa de sucessão presidencial deverá ter na política do Estado, com a possível candidatura de Ciro Gomes à presidência. “Nós estamos em uma situação no Ceará muito diferente da do resto do Brasil.” O resultado das ações do governo Cid já são vistos na vantagem que possui o governador nas pesquisas de opinião para as eleições de outubro. A importância da aliança PT-PS B não passará despercebida, com grande chance de reprise. “Há um convencimento da maioria do partido de que a aliança no Ceará está
sendo e será importante para mudar a história política do Ceará.”
Fale! São três anos e dois meses de governo no Ceará. Como o Sr. avalia essa parceria com o governador Cid?
Francisco Pinheiro. Avalio como algo muito positivo para a política do Ceará. Eu não conhecia o Cid. Antes da campanha acho que nós deveríamos ter nos cumprimentado duas vezes, não tinha nenhuma relação com o governador. Portanto
nós éramos dois desconhecidos um do outro. Mas o governador, eu diria, tem uma marca muito forte do sertanejo como eu, é uma pessoa de palavra. Quando ele faz um acordo, ele é muito rigoroso no cumprimento. Isso nos identificou muito. Eu
venho do sertão e tenho uma marca muito forte da educação dos meus pais, meus avós, que era aquela estória; não assina documento. A palavra é fundamental. E eu encontro no governador exatamente isso: uma pessoa que quando afirma alguma
coisa, você pode ficar completamente despreocupado que ele cumpre. Agora se ele disser que não dá, também, não dá.
Fale! O Sr. conversa bastante com o governador?
Francisco Pinheiro. Como a relação tem sido muito boa, sempre que necessário
a gente conversa. E, foi uma surpresa agradável, conviver com o Cid, com o Ivo [Ferreira Gomes], o chefe de gabinete com quem regularmente converso numa saudável troca de ideias. Esta convivência foi muito inovadora para mim que venho do ambiente da Universidade, do ambiente sindical, e que tinha uma experiência de parlamento como vereador, e a minha experiência no executivo é curta, que foi na Secretaria da Regional IV, embora tenha me dado um algo a mais. Fiquei lá um ano, mas isso já me deu muita experiência porque as secretarias, na verdade elas estão na ponta, fazem o contato com a população.É uma espécie de pára-choque da gestão. Elas absorvem boa parte das demandas, que são coisas cotidianas como asfalto, calçamento, posto de saúde, e dá para você resolver pelas regionais. Então isso me deu uma experiência de gestão bem interessante, mas a experiência maior é no movimento sindical, na Universidade e no parlamento.
Fale! O Sr. foi presidente do sindicato dos professores da UFC, a Adufc.
Francisco Pinheiro. Fui presidente da Adufc — Associação de Docentes da Universidade Federal do Ceará —, fui da direção nacional do Sindicato Nacional dos Professores, o Andes, da direção da Adufc durante duas gestões e vereador de 2004 a 2006.
Fale! O Sr. acredita na reedição da coligação PT-PSB que foi vitoriosa na eleição de 2006 tendo Cid Gomes como governador e o Sr. como
vice?
Francisco Pinheiro. É interessante porque essa aliança foi consolidada, mas ela é uma construção. No primeiro momento havia, de uma parcela significativa do PT, desconfiança de que as coisas não dessem certo. E essa aliança foi sendo consolidada aos poucos. E eu diria que o marco essencial desse momento foi a reeleição de Luizianne [Lins, prefeita de Fortaleza]. Ali o governador demonstrou isso que eu digo. Ele assume o compromisso e cumpre o compromisso; mesmo na situação da [senadora] Patrícia Saboya [exmulher e apoiada pelo deputado federal Ciro Gomes, irmão de Cid] ser candidata, o governador cumpriu o que ele havia discutido com a prefeita Luizianne e apoiou a prefeita Luizianne e foi um dos atores importantes na campanha.
Fale! O governador Cid mostrou a cara na campanha, não foi um apoio discreto.
Francisco Pinheiro. Mostrou a cara, fez campanha, participou da campanha de forma ativa. Esse momento foi um de consolidação da aliança. As pessoas perceberam que o governador tinha palavra e compromisso programático. Isso foi muito importante. Outro momento muito importante para essa aliança foi o resultado agora das eleições do PED [Processo de Eleição Direta, do PT]. Você tinha duas teses colocadas no tabuleiro. Uma tese que defendia, em função do resultado político, a continuidade da aliança. Uma outra que se colocava contra a aliança, lançando candidatura própria. A tese que defendia a aliança foi amplamente majoritária. A prefeita Luizianne defendeu com toda clareza a necessidade de continuidade da aliança. Meu grupo [Tendência Marxista — TM] defendeu, nós tivemos em torno de 12%. O grupo do Guimarães defendeu, somando o grupo dele com o meu temos em torno de 60%. Mas a prefeita Luizianne defendeu isso claramente. Quem foi que fez a defesa muito clara contra? Ilário [Marques] e o deputado Zé [José] Airton. Então há uma visão clara de que hegemonicamente o partido defende a aliança. Sabe avaliar o que está significando a aliança PT-PS B-PCdoB-PMDB no Ceará.
Fale! E o PT tem assento no governo,
não só o vice-governador, mas tem secretários no governo. Esse grupo do PT no governo está confortável, os resultados estão vindo?
Francisco Pinheiro. Nós temos reunião sistemática de planejamento e avaliação de execução orçamentária. Vamos pegar o exemplo do professor Auto Filho [Secretário da Cultura]. O professor tem uma crença muito importante, que é importante ter livros e leitores. Então o carro chefe da secretaria é fortalecer bibliotecas e os leitores. Ele tem feito um trabalho muito centrado. Estou citando essa questão porque acho que ela é emblemática no Ceará. E ele tem conseguido — às vezes tem dificuldade não por falta de recursos, mas por questão da burocracia. Os recursos estão disponíveis, agora há a burocracia da licitação, queé importante, mas muitas vezes você perde um tempo imenso. É necessário termos um Brasil com transparência no serviço público, mas sem dificultar tanto o processo de funcionamento da máquina pública, que hoje é completamente emperrada. Vejamos o caso de Camilo Santana [Secretário do Desenvolvimento Agrário], com uma área que foi completamente esquecida nos últimos governos enquanto política pública — essa área da agricultura familiar e da pecuária. Não havia políticas públicas voltadas pra essa área. Iniciamos o governo, e no programa de Garantia Safra, tínhamos vagas para que os agricultores se inscrevessem, 150 mil vagas. Calculamos que no Ceará temos em torno de 300 mil famílias que vivem da agricultura familiar. Obviamente, mais da metade dessas famílias, quando tinha enchentes ou havia secas, perdiam mais da metade da sua produção e não tinham nenhum seguro para garantir pelo menos a sobrevivência no período da entressafra. Uma das primeiras atitudes que tomamos foi conversar com o presidente Lula sobre o problema e saímos das 153 mil para 300 mil vagas. E no último período inscrevemos 273 mil famílias no Seguro-Safra. Isso fez com que nós tivéssemos sobra de vagas, pela primeira vez na história recente do Ceará. Então, o Camilo [Santana] tem feito um papel muito importante enquanto gestor. O Cartaxo [Joaquim Cartaxo, Secretário das Cidades] está também em uma área fundamental. Se você pegar só o que vai acontecer no Maranguapinho, são mais de cinco mil unidades residenciais a ser construídas. Isso vai acabar com 70% das áreas de risco de Fortaleza. Então, os secretários do PT estão muito bem, situados em pastas importantes. E têm feito um trabalho importante nas suas pastas. O partido, inclusive, coloca seu modo de gerir a coisa pública. O Auto fez uma construção cultural, o Camilo tem feito uma discussão sobre as políticas agrícolas no Ceará. Estamos fazendo a maior regularização fundiária no Ceará nesse momento. E toda a política agrícola no Ceará foi montada a partir da participação dos trabalhadores. Estamos colocando nosso modo de gestão em prática no governo do governador Cid Gomes.
Fale! Como o Sr. avalia hoje a hipótese de redesenho da coligação com vistas às eleições de outubro. Há uma discussão interna do PT em relação ao Vice. Há um compromisso do governador em reeditar a coligação, e há dentro do partido uma discussão. Como se avalia isso?
Francisco Pinheiro. Com naturalidade. Acho que o PT é o PT. E nós vamos ter sempre isso. Acho que é natural. Vamos avaliar qual foi o desempenho do Vice, se ele cumpriu aquilo que o partido havia determinado, ou não. Se a alternativa segunda de não ter cumprido for a considerada, não tenho nenhum problema em cumprir outro papel no partido. Isso não me causa nenhum constrangimento. Se a avaliação for contrária, de que cumprimos aquilo que estava dentro do que o partido exigia em termos de comportamento, das ações, da coerência do Vice, eu quero discutir por que eu não devo continuar. Aí não vai nenhum projeto pessoal porque do jeito que entrei, saio do mesmo jeito e vou cuidar de outras coisas. Mas a discussão é essa: vamos avaliar. Com transparência, vamos ver o seguinte: os parâmetros são esses, quais os parâmetros foram cumpridos e os que não foram e ver o resultado dessa somatória. Se o resultado for negativo, o partido tem todo direito de dizer não, você não cumpriu aquilo que nós determinamos então queremos testar outro nome. Tem que ter uma justificativa política. Você não pode descartar as pessoas como quem descarta casca de laranja.
Fale! Qual a posição da prefeita Luizianne Lins, nesse episódio?
Francisco Pinheiro. Bom, nós temos uma conversa marcada, não conversamos sobre isso, a minha última conversa política com a prefeita foi quando levei a sugestão dela ser candidata à presidência do PT. Ela me perguntou duas vezes sobre essa questão. Eu disse, Luizianne, vamos resolver essa questão por partes. Eu quero resolver agora a questão da presidência do PT. Ela disse, ‘o que você quer ser?’ Eu disse, não é o momento, depois a gente conversa sobre isso. Aí discutimos, eu apresentava a tese junto com o Acrísio Sena de ela ser a candidata do PT porque ela conseguiria constituir unidade no partido, ela tem autoridade política e tem apoio. Nós a convencemos, e na discussão com ela levantei duas teses básicas: se ela fosse candidata, faríamos o esforço junto a todos os quarenta para ela ser a candidata de unidade. Se ela não fosse, que ela me liberasse para eu ser candidato à presidência do PT. Essa conversa foi muito restrita. Foi Luizianne Lins, Acrísio Sena e professor Pinheiro. E eu disse, se você não for candidata, não quero que a minha candidatura seja motivo de esgarçamento entre nós. Ela disse não tem problema, me dê um tempo que eu vou responder. E ela respondeu na prática dizendo que aceitava. E na hora que ela aceitou eu virei um soldado da campanha dela. Fui defender a candidatura na prática. Então não conversamos sobre a Vice. O que eu tenho são notícias de jornal. Mas notícias de jornal,
são notícias de jornal.
Fale! Como o Sr. avalia a sucessão estadual aqui no Ceará, a preço de hoje, mantido o governador Cid candidato à reeleição. Como o Sr. vê os movimentos de oposição?
Francisco Pinheiro. Vamos analisar de forma objetiva. Se olharmos as pesquisas de opinião, fica claro que o governador Cid tem uma vantagem clara em relação à candidatura. Em relação ao governo, também. Então acredito que pelas condições postas hoje, o governador tem todas as chances de se reeleger, caso queira. Eu acredito que ele quer, que ele será candidato. Não quer discutir agora porque não quer encurtar o mandato. O governador tem ampla chance de ser candidato. Espalharam na cidade um boato, antes das pesquisas, espalharam que o ex-governador Tasso Jereissati teria uma grande vantagem sobre o governador Cid Gomes. E isso virou conversa de rodas políticas, no entanto quando saiu a pesquisa mostrou-se o contrário. O governador tinha uma grande vantagem diante do mais conhecido concorrente que é o ex-governador Tasso Jereissati, se ele concorresse. Nós podemos ter três candidaturas, acho que o PS ol tem candidatura, o prefeito Roberto Pessoa se apresenta como candidato. Acho que o cenário, se medido hoje, no início de 2010, as condições são favoráveis.
Fale! Qual deve ser o discurso do governador Cid, e do Professor Pinheiro na campanha de 2010?
Francisco Pinheiro. Acho que o discurso é muito mais um balanço do que nós fizemos no governo, o que estamos fazendo na área de saúde, educação, estradas, infra-estrutura, do crescimento econômico, de políticas sociais. Acho que devemos fazer um balanço, inclusive comparando perspectivas. Isso é um elemento fundamental. A maioria da população não toma conhecimento do que o governo faz, com algumas exceções. Acho que a campanha é um momento didático de você apresentar de forma condensada para a população o que realmente o governo fez. O setor médio tem informação, porque lê jornal, vê televisão, mas a imensa maioria da população cearense não tem acesso à informação. Não tem uma visão da rede de educação profissionalizante que estamos fazendo em todo Ceará, saindo de uma situação de zero matrículas nessa área para 46 mil alunos ao final de 2010. Essa noção ela não tem. Eu não sou marqueteiro, mas acho que uma das linhas de campanha é apresentar esse balanço.
Fale! E o quê é mais confortável para o Sr. como realização, nesse momento no governo, e o que é mais desconfortável?
Francisco Pinheiro. O que me conforta muito é a relação interna do governo. É uma relação muito franca, sem subterfúgios. Eu diria que às vezes é necessário que a gente chame a atenção para não perder o rumo das coisas, às vezes é necessário que se exija agilidade das pessoas. Uma coisa é você dizer que não tem dinheiro e outra é ter dinheiro em caixa e não executar. A dificuldade são os embarreiramentos burocráticos. O governador muitas vezes tem que ser exigente, fazer as pessoas prestarem atenção naquele projeto, que é prioritário, então temos que focar nele para que ele não atrase. Nas reuniões do governo isso é muito exercitado. Acho que issoé uma coisa fundamental em qualquer governo, você não fica com conversa de corredor. Discute tudo ali, e sai dali e as pessoas não se sentem machucadas. E o governador ao final diz, olha, se eu exagerei me desculpem, mas a minha preocupação com o interesse público é tão grande que às vezes eu tenho que expressar para vocês. Então eu acho que isso é o que mais me faz sentir bem no governo.
Fale! E a inclusão popular no governo?
Francisco Pinheiro. Nós temos vários programas em que exercitamos o modo de governo que nós acreditamos. Há uma forte participação popular no governo. Nós temos aí o Portal da Transparência, o Governo na Minha Cidade, quando o governador vê a população olho no olho. Muitas vezes altera a pauta para discussão de um fato local importante. Então por exemplo fomos a uma reunião em Assaré, e os professores estavam em greve. E tinha várias faixas, e ele [o governador] disse Prefeito o senhor me desculpe, temos um tema em pauta, mas os professores vieram aqui e é importante que possamos abordar para a população tomar conhecimento do motivo da greve dos professores’. E abriu o debate democraticamente, e disse, Olha, o microfone está aberto, vocês coloquem seu ponto de vista, coloquem sua pauta para as pessoas entenderem o que está em curso’. Isso foi no ano passado. Ele fez um debate de quase uma hora, expondo o ponto de vista dele sobre a greve, e abrindo o microfone para que a liderança dos professores falassem. Acho que isso é uma forma democrática de lidar com as adversidades. Tem outra coisa que nos faz muito feliz no governo. A PM hoje, se há um movimento social, não vai armada, e é sempre dirigida por um oficial. A notícia que mais me agradou foi que as bombas de gás lacrimogêneo estão perdendo o prazo de validade no paiol porque não tem como usá-las. Acho que isso é uma coisa importante no governo que quer construir o diálogo. Ao lado disso nós criamos uma mesa permanente de negociação com os servidores públicos e é uma reivindicação de longo tempo que nunca foi criada. Funciona de forma permanente, com um assento da CUT, e de todas as representações sindicais do Estado. Normalmente a pessoa que tem feito a interlocução mais forte é o próprio Ivo [Gomes], e quando necessário o próprio governador senta para fazer o debate. Claro que algumas coisas nos deixam preocupados, gostaríamos de avançar muito mais na qualidade da educação, acho que é uma coisa que tanto preocupa o governador como nos preocupa. Há um esforço imenso nosso, mas nós sabemos que em educação, só se sente o resultado daqui há uma década. Mas isso nos deixa ansiosos porque não vamos ver a criança nascendo. De um modo geral, acho que temos uma relação muito boa e estou sempre muito satisfeito de estar nesse governo.
Fale! Sobre a sucessão no Senado, o deputado Eunício Oliveira abriu mão em 2006 de sua candidatura ao Senado em favor do então deputado Inácio Arruda. E o deputado Eunício hoje se sente ameaçado com o surgimento da candidatura do ministro Pimentel ao Senado. O Sr. acha que essa variável atrapalharia a coligação?
Francisco Pinheiro. Veja, primeiro vamos assegurar que o Eunício terá apoio do governador, terá apoio também... Há uma definição também do PT, há um compromisso do PT de apoiar o Eunício. Sobre o ministro José Pimentel, eu não conversei com ele ainda e não houve nenhum debate formal no PT ainda. Não existe uma formalização do Partido dos Trabalhadores sobre essa questão. Eu aguardo e espero que a gente possa fazer um debate, porque eu sou muito disciplinado nessa estória de ficar opinando em relação a aliança com o governador. Eu tenho liberdade de opinar porque há uma resolução do partido reafirmando isto. Eu me sinto completamente a vontade de dizer assim: ‘não, o partido tem posição’. Em relação ao senado não existe ainda uma definição partidária. Mas acho que existem concepções importantes, acho muito importante que haja uma discussão com o governador Cid Gomes. Quem coordena a eleição em Fortaleza no caso foi a prefeita Luizianne Lins e o PT. É muito justo que quem coordene as eleições do governo do Estado seja o governador Cid Gomes e seu partido PS B. Lógico que ele tem vários aliados mas cabe a condução da eleição ao governador. Portantoé fundamental que em qualquer movimentação, haja antes uma discussão com o governador. Nós vamos ter um congresso do partido em março, e esse congresso define várias coisas, e virá como pauta única um debate sobre a estratégia para eleição. Até lá o partido tem que ter essa decisão formatada. E é claro que a conversa com o governador Cid Gomes é um passo importante, porque a meu juízo ele coordena as eleições para governo do estado. Tenho conversado com o Eunício, inclusive onde posso faço a defesa do nome dele, uma pessoa que foi importante para a eleição da prefeita Luizianne Lins, manteve a palavra, reuniu em torno da prefeita as pessoas que tem ligação com ele no PMDB. Então temos que dar essa segurança que o PT vai cumprir o acordo. E creio que ele [Eunício] está muito animado para esse ano.
Fale! A questão burocrática tem desacelerado muito o ritmo que o governo queria dar às obras? Como você avalia o ritmo das obras no governo?
Francisco Pinheiro. Acho que no Brasil nós temos já uma experiência longa sobre a lei 8666 que é a lei de licitação, estabelece normas gerais sobre licitações e contratos. Acho necessário fazer uma avaliação dessa legislação. Ela é um marco na história do Brasil em relação à coisa pública do Brasil, a coisa republicana, para você fazer com que as obras públicas ganhem um aspecto cada vez mais republicano. No entanto, ela tem um conjunto de amarras que não impede que alguns gestores cometam deslizes. Mas amarra os gestores que querem fazer a coisa com correção. Vou citar um exemplo clássico que aconteceu comigo. Nós fizemos uma licitação na Regional IV, em Fortaleza, para compra de saco de lixo. E por mais que o edital fizesse uma descrição pormenorizada dos sacos, quando recebemos os sacos de lixo vimos que eram totalmente frágeis. Era preciso colocar dois sacos, um dentro do outro, porque só um o saco rasgava. Mas de acordo com o edital o concorrente apresentou-se e cumpriu todas as exigências. A experiência da licitação no Brasil já nos permitiria fazer um reexame dessa licitação. O Presidente Lula tem se queixado disso, já no Congresso alguns parlamentares tem levantado isso, o governador também tem levantado essas questões. A lei tem que ser aperfeiçoada de acordo com a realidade histórica. Às vezes o barato sai muito caro.
Fale! O ministério público também tem, em alguns momentos, desacelerado o ritmo das coisas. Falta interlocução? Como se pode avaliar essa ação do Ministério nas obras?
Francisco Pinheiro. Acho que o Ministério Público está no papel deles. Mas é fundamental que haja interlocução entre os poderes Judiciário, Executivo e Legislativo. Porque acho que o que deve predominaré o interesse público. E muitas vezes nós temos muitas obras que são atrasadas em detrimento do interesse público por conta de debates que terminam se resolvendo. Mas isso leva às vezes muito tempo pra se resolver. Discussão sobre licenças ambientais. Eu acho que temos que ter muito rigor nisso, porque temos hoje no mundo inteiro. Há regiões belíssimas destruídas pela intervenção inadequada, pelo mal uso dessas regiões. Na Europa, o que eles tem de beleza natural é o essencial. Eles mostram aquilo com todo orgulho. Nós temos situações no passado muito recente no Ceará com hotéis que foram construídos sobre falésias. Aqui temos a seguinte situação: as falésias são uma grande atração turística, aí você mata a galinha dos ovos de ouro. Nisso você tem que ser muito rigoroso para evitar a destruição tanto pelo nosso usufruto, como pelo próprio equilíbrio do ambiente, mas também para que as gerações futuras tenham direito a apreciar essa beleza. Às vezes acho que há exageros, mas é necessário que a gente tenha rigor nisso. Mas o essencial é o diálogo, acho que às vezes falta diálogo.
Fale! E a questão do Acquário que gerou enorme polêmica. Qual sua posição sobre o Acquário?
Francisco Pinheiro. Avalio que é um projeto que vai requalificar aquela região [Praia de Iracema]. Às vezes as pessoas fazem um debate e infelizmente não pesquisaram, não conheceram as realidades no mundo. Se você for a Lisboa, as pessoas ficam as vezes um dia a mais em Portugal para ir ao Oceanário. Em Barcelona, estão oceanários belíssimos. Idem, em várias partes dos Estados Unidos. Então oceanários tanto são espaço de pesquisa como de visitação turística. Além de atrair uma grande quantidade de pessoas é um instrumento importante para se requalificar uma área que foi extremamente importante para nossa cidade, perdeu essa condição, e a prefeitura faz um esforço muito grande para requalificar aquela área. Às vezes nós estamos acostumados a coisas muito pequenas. Não acreditamos que possamos fazer coisas belas, com qualidade, e as pessoas ficam se apequenando. E é o caso do Acquário. Mas gastar 200 e tantos milhões num aquário, podendo gastar com saúde, criticam alguns. O que é uma bobagem, porque no orçamento tem rubricas. Não se pode tirar da saúde para colocar na educação, como não se pode tirar do meio ambiente para colocar na saúde, porque boa parte dos recursos que nós vamos utilizar no Acquário são compensações ambientais, e deve ser usado especificamente para isso. Às vezes é um discurso meio populista, às vezes fico meio incomodado com isso. O Acquário vai gerar um impacto grande. Do mesmo modo vai gerar impacto com o Aeroporto Internacional de Jericoacoara, que é um ícone mundial de turismo. O aeroporto vai ficar numa região muito próxima a Jericoacoara, e vai possibilitar que as pessoas venham da Europa direto para Jericoacoara.
Fale! E sobre a construção do Estaleiro na região do Serviluz que, a despeito de estar numa área nobre é uma região largada?
Francisco Pinheiro. Eu acho que se tem de fazer uma avaliação muito fina sobre isso. Qual é o impacto de empregabilidade para a população no Serviluz numa obra dessas? Qual o impacto ambiental, o impacto da paisagem turística? Qual o impacto para os meninos que fazem surf, se não tiver surf no Serviluz eles ficarão sem escola de surf, ou há como se construir em outro espaço para que possam fazer o surf? O governador tem aberto o debate sobre determinadas obras que tem um impacto muito forte para a cidade. Essa obra pode alterar profundamente a situação da economia local. Porque há sempre o compromisso do governo de quando você faz a intervenção em termos de qualidade de obra, de você qualificar a população no seu entorno para que ela também se beneficie com sua presença. Nós temos que ver como se requalifica aquela área em termos de moradia. Uma região que eu conheço e sei que, por exemplo, durante o período de setembro, outubro, novembro as pessoas conseguem sequer cozinhar, porque areia invade as casas pelo teto. É um negócio brabo para a população. Como você requalifica, melhora as condições de moradia? Tudo isso deve estar nessa discussão. É uma área que tem muita insegurança, existe até dificuldade para o setor de segurança entrar lá. Teria que ser uma intervenção casada. Melhorar as condições da população de um modo geral, com alargamento de vias, melhoria de habitação, saneamento básico, temos agora uma escola. Há toda a preocupação com aquela área que tem uma densidade populacional muito grande, mas também tem uma pobreza muito grande. Tem uma coisa importante, já teve vários jovens que foram revelados ali na escola de surf. Então você preserva para que essa juventude possa continuar a ter acesso a isso.
Fale! O Presidente Lula tem insistido na tese de uma disputa eleitoral da sua sucessão plebiscitária. Como você avalia essa tese?
Francisco Pinheiro. Bom, nós temos duas teses. O deputado Ciro Gomes defende a tese de que para haver segundo turno é necessário que haja duas candidaturas da base aliada. Essa é uma tese que ele vem defendendo, e aí nós temos que avaliar como que evolui a aceitação das candidaturas até pelo menos março-abril. Se chegar lá em março, e a Dilma estiver empatada com o Serra, então a tese do presidente Lula mostrou-se mais eficaz. Porque haveria segundo turno de qualquer jeito porque a Marina [Silva] daria seus 5 ou 6%, haveria segundo turno. Caso a Dilma não consiga avançar e fique num nível muito distante do Serra, então a tese do Ciro se coloca bem. Então acho que nós temos que analisar as pesquisas pari passu. O que as pesquisas vem mostrando? Que a Dilma tem crescido dentro daquilo que era planejado. Vi uma pesquisa hoje, no Rio de Janeiro ela está empatada com o Serra. No Nordeste ela sempre esteveà frente do Serra com grande diferença. Então a coisa está caminhando para que a tese do presidente Lula tenha razão. Mas acho que essa é uma discussão democrática e é muito importante fazer isso com a maior tranqüilidade. Acho que março, abril, no máximo maio, isso teria que estar definido.
Fale! O risco de uma eleição plebiscitária não é muito elevado? Nãoé uma espécie de roleta russa, sem plano B?
Francisco Pinheiro. Eu acho que se as pesquisas indicarem a construção que o presidente vem fazendo, é um risco calculado. Se houver qualquer risco com certeza o presidente Lula vai ser convencido da necessidade de uma segunda candidatura da base aliada.
Fale! O PSB nacional tem dito que vai manter a candidatura do deputado Ciro Gomes. E o governador Cid concorda com a tese de que a candidatura do Ciro viabilizaria, daria segurança a um segundo turno.
Francisco Pinheiro. Acho que o segundo turno tem essa vantagem. Você não resolve as coisas no 1º turno. Tivemos isso na história do Brasil recente. A eleição do presidente Lula, Ciro foi candidato, mas quando o presidente passou para o segundo turno, Ciro foi o primeiro a apoiá-lo. Então nós temos que encarar isso com muita tranquilidade, acho que primeiro temos que respeitar a autonomia do PS B, é um partido aliado mas tem todo o direito de traçar para o partido o melhor caminho que eles perceberem. Acho que a primeira coisa é isso. Ter respeito é essencial. E discutir francamente. ‘Olha, se nós percebemos que a coisa dá para ser ganha no primeiro turno, vamos fazer logo essa convergência agora. Se não, vamos trabalhar mais uma candidatura da base aliada.’ Mas acho que o que deve presidir esse debate é o respeitoà autonomia dos partidos.
Fale! Uma candidatura do deputado Ciro dividiria o palanque aqui na sucessão estadual porque colocaria PT num palanque, e o PSB em outro. Como seria a gestão dessa questão interna?
Francisco Pinheiro. Acho que deveria ter tranquilidade de discutir isso a nível nacional. Nós estamos em uma situação no Ceará muito diferente da do resto do Brasil. Aqui você tem o governador e tem um candidato à presidência da República que é irmão do governador. No meu ponto de vista, essa é uma questão a ser discutida principalmente no âmbito nacional. DiscutI isso no âmbito nacional com a participação das lideranças estaduais, mas acho que nosso objetivo maior é garantir o projeto nacional. Temos que saber o que é essencial e o queé secundário. Acho que essencial para o povo brasileiro é manter o projeto nacional, e isso requer sacrifício, você tem que sacrificar alguma coisa para manter o projeto nacional. E a posição do governador Cid Gomes tem sido das mais lúcidas possível. Ele declarou o seguinte: ‘Não tenho problema de estar no palanque da Dilma e no palanque do Ciro no Ceará’. Então a posição do governador é de muita franqueza e de muita generosidade. Acho que o PT também tem que ter generosidade nisso. E o PT tem generosidade. De saber, olha, o projeto nacional é importante, nós temos que administrar as nossas dificuldades no Estado de modo que não prejudique nossa aliança local, que é importante, e de modo que não prejudique nossa aliança nacional, que é fundamental. É uma construção difícil. Não é fácil essa construção porque como há no PT um setor pequeno que quer lançar candidatura própria, isso seria terreno muito fértil para essa tese ganhar corpo. Não creio que tenha chance de passar pelo diretório. Há um convencimento da maioria do partido de que a aliança no Ceará está sendo e será importante para mudar a história política do Ceará.
Fale! Como o Sr. avalia a gestão da prefeita Luizianne Lins?
Francisco Pinheiro. Eu acho que Fortaleza teve perdas muito drásticas em relação ao Fundo de Participação dos Municípios (FPM). E o fundo de participação leva em conta dois parâmetros básicos, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade, e a população. E Fortalezaé uma cidade que tem um IDH baixo e uma população alta. Então o FPM era muito alto, e a incidência da crise em Fortaleza foi mais drástica do que para a maioria das capitais brasileiras. Houve uma perda muito significativa. Essa perda influenciou no orçamento da capital. Isso fez com que muitas obras fossem atrasadas, algumas obras tiveram que ser paradas, é claro que isso repercute para a população. Então a população está avaliando diante de um contexto com dificuldades. Eu acredito que a prefeita começe a recuperar algumas verbas. A recuperação da economia brasileira possibilitará que nesses 3 anos que faltam de seu mandato, a prefeita tenha todas as condições de recuperar a sua gestão. Todas as condições, porque ela vai ter recurso, vai ter condições de realizar as grandes obras, tipo a reforma do PV [o estádio Presidente Vargas].
Fale! O fechamento do PV trouxe um grande desgaste.
Francisco Pinheiro. A obra vai apagar o desgaste, que foi grande. Porque, por exemplo, você pega os programas esportivos, e esses programas, com alguma razão, dizem “e o PV, e o PV?’. Isso tem uma irradiação muito grande para a população que é apaixonada por futebol, o que não é pouca gente. O Hospital da Mulheré outra situação que ela vem lutando para conseguir recurso e tem tido dificuldades. E isso tem sido usado pela oposição pra dizer, taí, não disse que era só campanha eleitoral’. E que na verdade é uma dificuldade de recurso pois trata-se de uma obra muito cara. E tem algumas intervenções que estão sendo feitas que são muito importantes como o Transfor. São muito importantes mas geram o desgaste. Porque você está interditando ruas, você está dificultando o tráfego. Obviamente as pessoas, numa cidade em que o trânsito está ficando cada vez mais caótico, as pessoas que usam carro ficam insatisfeitas. Na hora que você terminar as obras do Transfor, esse desgaste se transforma em aprovação. Você vai ter vias exclusivas para ônibus. Eu diria que ela tem todas as chances de recuperar esse momento da gestão. E é claro, ela tem tido o cuidado também de melhorar a gestão em si, o que é outra coisa difícil. O governador faz um esforço cotidiano de gestão. Ele visita todas as obras, ele vai, tá lá, ele anda muito. E, mesmo assim, algumas obras emperram. Agora ela inaugurou uma coisa muito importante, o Palácio do Bispo. Levou um bom tempo para ser inaugurado, mas hoje é um comentário na cidade da importância do poder municipal voltar para o centro da cidade. Pelo que conversei com ela, ela disse: Olha Pinheiro, nós temos projetos e temos verbas pra ser liberadas... e acreditamos que isso faz com que ela possa recuperar o fôlego. Que é um pouco parecido com a situação dela pré-eleitoral.
Fale! A comunicação não foi desempenhada com precisão?
Francisco Pinheiro. No pré-eleitoral havia uma falha de comunicação na prefeitura. Então ela, e aí eu tinha participado da gestão... nós alteramos muito a qualidade dos postos de saúde de Fortaleza. Só que, a medida que você melhora, as pessoas querem mais. É da natureza humana. Se você chegou a um nível você quer sair de um nível para um nível melhor. As pessoas viram melhoria e querem mais melhoria. É interessante porque o investimento maior foi na saúde e era a área que tinha a pior avaliação na prefeitura. Mas à medida que foi sendo mostrado as intervenções na saúde, a população começou a perceber a saúde comparada com o que era no passado. Também aí tem uma falha, eu acho que a prefeita não conseguiu resolver, não estou fazendo nenhuma crítica aos companheiros da imprensa ligados à prefeitura, mas acho que ainda há uma falha de comunicação. Houve uma melhoria significativa, mas ainda não conseguiram encontrar a química para mostrar à população o que está sendo feito pela prefeitura. E por fim, eu acho que as pessoas estão acostumadas, nas grandes metrópoles, com as grandes obras. E a gestão da prefeita Luizianne se preocupa mais com as questões que dizem respeito diretamente às pessoas — tais como mais saúde, melhoria de material escolar, salário dos professores, bolsa saúde, e não fez nenhuma grande obra na cidade. As grandes obras vão sair nessa gestão. Hospital da Mulher, PV, Costa Leste, a requalificação da Praia de Iracema, tudo isso deve sair agora nessa gestão. Ela poderá completar o ciclo, que é se preocupar com as pessoas e fazer as grandes obras.

|