O Ceará não possui grandes usinas hidrelétricas, não se destaca na produção nacional de petróleo, responde por apenas 0,74% da capacidade de geração de energia do país, mas, talvez por isso mesmo, vem se consolidando nos últimos 20 anos como um dos estados com maior potencial para o desenvolvimento e expansão das energias renováveis. Antes disso, aliás, o pesquisador cearense, Expedito Parente, já havia sido um dos pioneiros no país a conceber, nos anos 70, o hoje aplaudido biocombustível à base de mamona. Mas é o potencial de produção de energia eólica que chama atenção nas terras alencarinas e no Nordeste brasileiro como um todo.
Gigantes multinacionais da energia eólica estão de olho no nosso mercado energético que se revela um dos mais promissores no país e no mundo. Em setembro último, a empresa norte-americana Econergy International estabeleceu o primeiro parque eólico de energia renovável na Praia das Fontes, em Beberibe, a 87 km de Fortaleza. Com potência instalada de 25,6MW — MegaWatt – e capacidade para gerar 90 mil MWh/ano – MegaWatt-hora por ano –, o parque eólico abastecerá cerca de 200 mil pessoas, ampliando a oferta de infra-estrutura elétrica para receber novas indústrias e empreendimentos ligados ao turismo na região. A usina eólica se consolida como a primeira indústria de energia renovável da Econergy International no Brasil e também o primeiro projeto eólico integrante do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica — Peoinfa, a entrar em operação no Estado.
A multinacional é centrada principalmente em investimentos nas Américas, tendo como principal característica a produção independente de energia, — ou PIE, na linguagem técnica dessa modalidade energética — como o exemplo de sua mais nova instalação em Beberibe. Para o CEO da Econergy, Tom Stoner, “a política desenvolvimentista do empreendimento visa construir, adquirir e operar plantas de energia renovável que gerarão energia em grande demanda e, ao mesmo tempo, contribuir para um mundo livre de carbono”. Em termos energéticos, o empreendimento é superior à soma de todos os projetos de energia eólica instalados até então no Ceará. O estado contava até então com três parques eólicos, que geravam 17,4 MW de potência, estando interligados à rede da Companhia Energética do Ceará – COELCE. Esse nível de produção conseguia abastecer cerca de 50 mil residências, com consumo médio mensal de 80 kWh.
Outro empreendimento bilionário é do grupo estrangeiro Siif Enérgies, – composto acionariamente por empresas portuguesas e norte-americanas – que pretende instalar 15 usinas no Brasil, sendo 6 no Ceará, até 2011. Segundo o diretor-presidente da empresa, Armando de Almeida Ferreira, “numa primeira etapa serão instaladas, até dezembro deste ano, sete usinas no Brasil, com geração total de 355 MW e investimento de R$ 1,426 bilhão. No Ceará, os aportes financeiros devem atingir R$ 1 bilhão.” Recentemente, uma companhia francesa, a Cegelec, com sede em São Paulo, começou a sondar a instalação de um parque eólico na Serra da Ibiapaba para a produção de 400 MW. Estima-se que o empreendimento pode atrair um investimento de R$ 1,75 bilhão. No total, são 14 projetos de energia eólica sendo construídos ou em fase de planejamento. Eles devem representar um acréscimo de 500,53 MW na potência estadual instalada nos próximos quatro anos. Se cumpridos os prazos de construção das novas usinas eólicas, o estado pode, já em 2009, se tornar líder nacional no setor. Internamente, isso representará 20% da demanda local por energia elétrica.
Por hora, o novo parque em Beberibe já diminui a distância do estado em relação ao Rio Grande do Norte, atual líder na produção de energia eólica do Nordeste e segundo colocado no país. Em 2007, o estado com maior potência instalada no Brasil foi o Rio Grande do Sul, com 150 MW, ou 63,3% do total nacional. Em seguida, vieram os potiguares com 51,1MW, ou 21,5% da produção nacional. O Ceará, na terceira colocação, respondeu por 7,3%, mas, com o aumento de 147,1% no potencial instalado, deve fechar 2008 com mais de 10% de participação nesse mercado. Na quarta posição, apareciam os catarinenses, com 14,4 MW de potência, ou 6% do total. Paraná, Minas Gerais e Pernambuco, juntos, responderam por pouco menos de 4MW, ou 1,5%. Os outros vinte estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal, não têm contribuição significativa e contam até agora apenas com projetos experimentais ou em construção. Entretanto, em regiões como os litorais do Amapá, Pará, Maranhão, Piauí e o oeste da Bahia há também grande potencial para instalação de parques eólicos. |
Ventos que podem gerar riquezas
O uso do vento para a geração de energia mecânica é conhecido há muitos séculos. Desde a China e a Mesopotâmia antigas, passando por Roma e Mundo Árabe, o homem já utilizava a força dos ventos em equipamentos rudimentares, embriões dos famosos moinhos, para bombear água, moer grãos, entre outras finalidades. Na Idade Média, logo após as Cruzadas, o uso de moinhos de ventos se disseminou pela Europa, essa foi uma das tecnologias introduzidas no velho continente a partir do contato com o mundo islâmico. O país que ficou mais marcado por esse tipo de equipamento foi a Holanda, uma vez que precisava drenar grande quantidade de água em parte do seu território situada abaixo do nível do mar.
As primeiras tentativas de converter a energia mecânica, ou cinética, em energia elétrica ocorreram no século XIX, mas, só a partir da crise do petróleo na década de 1970, o mundo desenvolvido começou a sentir necessidade de pesquisar e desenvolver tecnologias independentes dos combustíveis fósseis. A primeira turbina eólica comercial ligada à rede elétrica pública foi instalada em 1976, na Dinamarca. A partir dos anos 1990 e 2000, a energia eólica ganhou grande impulso devido aos alertas de ecologistas e estudiosos do clima sobre o fenômeno conhecido como aquecimento global, gerado pela emissão de gás carbônico proveniente, entre outras fontes poluidoras, da queima do petróleo. Mas para além da razão ecológica, há motivações políticas e econômicas para esse interesse pela energia eólica, entre outras modalidades de energias renováveis.
Do ponto de vista político, além do apelo ecológico, há as questões relativas à independência desejada pelos países ocidentais em relação ao petróleo proveniente do turbulento Oriente Médio. Do ponto de vista econômico, o desenvolvimento de novas tecnologias em geração de energia eólica vem barateando cada vez mais essa modalidade energética, que depende de um recurso natural renovável para se manter, ao contrário do petróleo, que tem estimativas de esgotamento de 50 a 200 anos. Países em desenvolvimento, como o Brasil, também têm especial interesse nessa tecnologia, devido à abundância de ventos comerciais em algumas dessas nações, situadas geralmente nas proximidades dos Trópicos. Ventos comerciais são aqueles que atingem velocidade superior a 7m/s, o equivalente a 25km/h, a uma altura de 50 metros.
De acordo com a Organização Mundial de Meteorologia, em apenas 13% da superfície terrestre o vento apresenta essas características. Mesmo assim, estima-se que o potencial eólico bruto mundial esteja em torno de 500.000 TWh (TeraWatt-hora) por ano. Devido, contudo, a restrições socioambientais, apenas 53.000 TWh (10,6% do total) são considerados tecnicamente aproveitáveis. Isso ainda seria suficiente para abastecer de eletricidade mais de três planetas Terra!
A turbina eólica moderna
Energia eólica é a energia cinética do deslocamentos de massas de ar, gerados pelas diferenças de temperatura na superfície do planeta. Resulta da associação da radiação solar incidente no planeta com o movimento de rotação da terra
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