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Patrícia Saboya

"É totalmente possível fazer dez vezes mais do que está sendo feito atualmente pela Luiziane Lins"

Militante no combate à exploração sexual de crianças e adolescentes, a senadora cearense Patrícia Saboya é um exemplo de que quando há vontade política é possível trazer melhorias para o país. Autora do projeto de ampliação da licença-maternidade, que altera o período de quatro para seis meses e cuja votação foi unânime no Senado Federal, a senadora mostra que seus projetos são realmente inovadores e voltados para beneficiar a população.
Por ter um histórico amplo em defesa dos direitos humanos, foi que Patrícia Saboya foi eleita a primeira mulher senadora do Estado do Ceará, em 2002. Com uma votação recorde de 1.864.404 votos, a primeira senadora com oito anos de mandato desenvolveu projetos voltados para a defesa dos direitos das crianças e por um modelo de desenvolvimento mais justo para o Ceará.
Herdeira política de seu avô, o senador cearense Plínio Pompeu Saboya, Patrícia Saboya nasceu em 1962, no município de Sobral, interior do Estado do Ceará. Por trazer no sangue o gosto pela política, casou-se com um dos maiores políticos da história brasileira, o deputado federal e ex – governador do Ceará e ex-prefeito de Fortaleza, ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes, com quem teve quatro filhos.

A pedagoga Patrícia Saboya, no período de 1989 e 1990, quando era primeira dama do município de Fortaleza, presidiu a Operação Fortaleza (OPEFOR), onde teve a oportunidade de desenvolver diversos projetos, dentre os quais a implantação de brinquedotecas nas escolas e de creches na rede pública da capital.
Em 1996, Patrícia Saboya elegeu-se vereadora de Fortaleza e, nas eleições gerais de 1998, foi eleita deputada estadual pelo PPS com a segunda maior votação do estado - 79.738 votos, entre os quais 46.217 somente em Fortaleza. Nesta entrevista, ela diz porque quer ser eleita Prefeita de Fortaleza e faz críticas a gestão atual, da prefeita Luzianne Lins.

Fale! O que leva a senhora a se candidatar mais uma vez em uma situação bem mais adversa que da ultima vez, em 2000?
Patrícia Saboya. Os problemas da nossa cidade são grandes e o meu dever e responsabilidade por Fortaleza é enorme. Já fui vereadora, deputada estadual e tive o privilégio de ser eleita a primeira senadora de nossa história, o que gera muito compromisso e responsabilidade com a cidade de Fortaleza. Disputei as eleições municipais há oito anos num quadro que era bem diferente. Hoje, vivo um outro momento. Com mais experiência, mais maturidade e com um profundo conhecimento dos problemas da nossa região. A gravidade desses problemas me motivou a pleitear o cargo de prefeita de Fortaleza. Como vereadora, me aproximei muito dos problemas da cidade; como deputada estadual, procurei dar a mesma linha de trabalho, o mesmo sentido de buscar soluções para os anseios da população de Fortaleza. Agora, quero me entregar mais a esta cidade.

Fale! O que a senhora pode fazer pela cidade?
Patrícia Saboya. Fortaleza hoje tem mais de 2.5 milhões de habitantes e apresenta, infelizmente, problemas graves, como na saúde, fora tantos outros. Isso requer de cada um de nós que está na vida política, a discussão do poder partidário. Nesse momento, acredito que a melhor forma de ajudar é propor um projeto alternativo, diferente dos que estamos tendo atualmente e daqueles que aconteceram em um passado recente. Nós do PDT achamos que temos a condição necessária, não só pelo partido, mas pela aliança partidária que poderemos formar para colocar Fortaleza novamente em movimento e crescimento. Tenho observado — ao conversar com as pessoas mais simples, com instituições e segmentos como o empresarial, cultural, da mulher e com a sociedade em geral —, a necessidade urgente de mudar o rumo da administração pública de Fortaleza.

Fale! A senadora se coloca como uma opção na sucessão da prefeita Luziane Lins. Neste sentido, o que a senhora pode fazer que a atual prefeita não tenha feito para o povo de fortaleza?
Patrícia Saboya
. Em primeiro lugar, não existe uma visão de gestão em Fortaleza. Você percebe hoje uma cidade abandonada, cujos problemas estão ainda maiores. Na Saúde Publica, um caos. Vimos a queda de dois elevadores, em menos de 10 dias no hospital Instituto Dr. Jose Frota (IJF). O IJF é, inclusive, referencia em atendimento em saúde do município, com grande potencial, mas que não consegue atender a demanda da nossa cidade e também das pessoas que vêm do interior do estado. Por que o hospital não funciona? O problema começa na base, no Programa Saúde da Família (PSF), na falta de estrutura, na falta de equipamentos e por último na falta de valorização dos servidores municipais que prestam serviços na área de saúde. Em quase três anos e meio de governo municipal, não vimos nenhuma iniciativa no sentido de melhorar as condições de vida das pessoas que moram em Fortaleza. Quem lida com política, anda nessa cidade e conhece seus problemas sabe que a maior urgência é lidar com problemas de saúde. Para enfrentá-los, não é só questão de recursos, mas de gestão, de administração. Porém, o que temos é a ausência completa de uma visão administrativa, na qual haja planejamento para resolver os problemas da cidade. Não estou sendo leviana em dizer que todos os problemas possam ser resolvidos em quatro anos. Mas é preciso tomar com urgência alguma medida para solucionar os graves problemas do dia-a-dia da nossa capital.

Fale! Os recursos são suficientes para resolver os problemas de governo? Como serão distribuídos e qual é a prioridade utilizada em sua gestão para cada área?
Patrícia Saboya. Eu acompanho o sentimento das pessoas e em todas as eleições vejo o descontentamento na face de cada um diante de tantas promessas. Gestor municipal deve ter a capacidade de se cercar de pessoas capacitadas, bem preparadas e que tem obrigação de conhecer detalhadamente os problemas ligados à saúde e à educação. Sei que é difícil uma pessoa estar preparada para atuar em todas essas áreas da administração pública, mas ela tem que ter no mínimo noção de planejamento a curto, médio e longo prazos e buscar os recursos necessários para que isso aconteça. É claro que, em uma cidade como a nossa, que é pobre, onde grande parcela da população vive abaixo da linha da pobreza, não é possível fazer mágica com apenas R$ 2.4 a R$ 2.7 milhões de orçamento. O bom administrador tem que ter uma visão mais ampla e estabelecer prioridades. Isso é planejamento. O que vemos hoje é o mesmo modelo antigo de administração pública. A tese de se criar regionais é boa, mas o que aconteceu foi uma divisão da cidade em termos políticos.

Fale! a gestão municipal repete então o modelo que criticava?
Patrícia Saboya. O que mais me assusta na atual administração é que ela tinha todas as condições para seguir um novo modelo, por meio da reforma administrativa, sem favorecer político A, B ou C. Uma visão de administração que não só busque recuperar a própria economia da prefeitura, mas também investir em algo que possa fazer com que essa cidade se transforme em um grande potência, com geração de renda e melhoria de vida para as pessoas. O que tem feito a administração publica em relação ao turismo? Cidades muito menores que a nossa possuem uma estrutura turística bem melhor. Natal, por exemplo, nosso vizinho, já tem hoje seis vôos internacionais. O Nordeste se consolida como um destino turístico importantíssimo e Fortaleza fica atrás. Uma boa gestão municipal tem que ter a visão de buscar investimentos e não deixar a responsabilidade apenas para os governos federal e estadual. Não só ficar esperando, mas ir atrás. Hoje, sabemos que existem investidores no mundo inteiro que querem injetar dinheiro em municípios com o perfil de Fortaleza.

Fale! O PDT fez aliança política com vários partidos para formar um bloco de apoio à sua campanha eleitoral. Essa união não poderá contribuir para que haja um “loteamento político” dos cargos públicos e, consequentemente, prejudicar sua gestão?
Patrícia Saboya. Os partidos que venham a nos apoiar, no sentido de propor uma nova era, um novo modelo administrativo, já têm a compreensão clara de que vou montar uma equipe com pessoas muito bem preparadas para ocupar importantes pastas, como da Saúde, Educação, Habitação. E também para lidar com questões como o planejamento urbano. Hoje, não temos planejamento urbano — o inchaço urbano é um dos maiores problemas, não só para aqueles que têm carros, mas principalmente para o trabalhador que precisa usar o transporte coletivo. Com toda certeza, essa aliança só irá contribuir para uma boa administração.

Fale! Como a Sra. Avalia o provável apoio do senador Tasso Jereissati À sua gestão?
Patrícia Saboya. Em relação ao senador, ele tem me apoiado e temos uma relação de apoio mútuo pelo bem de nosso estado. Mas cada um pensa de seu modo, eu do meu jeito e ele do jeito dele. Eu sou da base do governo Lula e ele é da base da oposição. Agora, me caracterizar ou tentar dizer que eu sou melhor ou pior por casa do senador, isso é uma coisa absolutamente atrasada, antiga e arcaica. É preciso ter muita clareza nos fatos, para que não haja confusão. Eu perdi uma eleição, mas isso nada tem a ver com o Tasso. Ele não participou de minha campanha, não foi a nenhum dos meus comícios. A responsabilidade pela minha derrota foi por minha própria culpa. Eu não tive os votos suficientes para me eleger. Aquela foi uma campanha muito dolorida, foi muito suja, machista, baixa e só faltaram me destruir pessoalmente. Hoje, 12 anos depois, estou preparada politicamente, com muita experiência, mais amadurecida, com mais disposição. Estou apta para resolver todas estas questões graves que assolam Fortaleza.

Fale! Como seria a composição da sua equipe de gestão?
Patrícia Saboya. Eu jamais seria irresponsável e colocaria a frente de pastas importantes para Fortaleza pessoas que não tenham perfil para exercer tamanha responsabilidade só porque fiz uma aliança com grandes partidos. Eu quero colocar técnicos que entendem do assunto a fundo. O gestor não pode ficar esperando o seu secretariado aprender a administrar e planejar para que as coisas nesta cidade aconteçam. De forma alguma, eu farei isto. Para mim, competência independe de que partido a pessoa escolhida seja, pois quero trabalhar com os técnicos. Me empenharei pessoalmente para que essa decisão aconteça. E como meu papel de política, eu mesma vou me empenhar para aprovar programas, buscando recursos diferenciando da atual gestão da prefeitura.

Fale! indicadores mostram que fortaleza está perdendo competitividade como destino turístico. qual serão suas ações para colocar Fortaleza no lugar de destaque como destino turístico nacional?
Patrícia Saboya. Nós temos um dos maiores aeroportos internacionais do Norte e do Brasil. Houve uma época em que ele não tinha infra-estrutura e recebia mais turistas do que agora. Hoje, ele tem suporte muito melhor, passou por uma ampla reforma, mas, ao invés de aumentar o número de turistas, tivemos uma queda. O que é inadimissível. Eu considero que nós somos uma cidade abençoada por Deus, uma cidade naturalmente linda. O povo parece que foi talhado só para receber bem as pessoas, o artesanato é tido como um dos mais lindos do planeta e possui uma culinária especial. Fortaleza tem uma infra-estrutura já bem adiantada em relação a algumas capitais do Nordeste e poderíamos estar bem melhor. Outras cidades estão se sobressaindo porque aqui não há prioridades para algo que pode ser, na minha concepção, uma das melhores formas de distribuição de renda: o turismo. Mas falta visão administrativa na gestão da prefeita.

Fale! Qual é o seu compromisso de campanha para recuperar áreas degradadas, como as praias do Futuro e Iracema e o centro da cidade de Fortaleza?
Patrícia Saboya. É meu compromisso recuperar essas três áreas específicas. É um compromisso de qualquer pessoa que valorize a nossa cidade. Quero restaurar a dignidade do nosso bom e velho centro da cidade para que famílias possam voltar a freqüentá-l0. Temos que mudar o quadro atual, onde nem uma simples praça escapa a falta de atenção — todas estão abandonadas. Pretendo firmar parcerias com o setor privado, com o governador, com o Presidente da República, com o senado federal, para dar forma física aos projetos. Irei buscar recursos para trazer o desenvolvimento e o crescimento a nossa cidade tão abandonada e esquecida por pessoas que não a amam. Não vou ficar de braços cruzados, esperando o dinheiro cair do céu, porque se o prefeito não for atrás, não há maneiras de se trabalhar com o orçamento da prefeitura. Não há como fazer milagres. O certo, nesse caso, é correr atrás de alternativas, literalmente, tanto dentro do Brasil como no exterior.

Fale! A PRAIA DE IRACEMA É UM EXEMPLO ACABADO DE DEGRADAÇÃO URBANA?
Patrícia Saboya. A praia de Iracema é hoje utilizada para a prostituição, para o consumo e venda de drogas. Virou um lugar totalmente desapropriado para ser utilizado por pessoas de bem, que vêm com a família, crianças ou idosos. A culpa mesmo é do poder público, que virou as costas à população que hoje não pode freqüentar não só a Praia de Iracema, mas também a Praia do Futuro. Quem fornece alvará de funcionamento para as casas noturnas que fazem serviços de prostituição? De quem é a obrigação de fiscalização? Tudo isso é responsabilidade da prefeitura. Mas a atual gestão joga a culpa de todos os fracassos de administração nas gestões passadas e simplesmente cruza os braços. Onde foram parar as promessas de auditorias, de reforma administrativa, de combate a corrupção, de desvios de dinheiro público? Eu pretendo fazer uma gestão diferente, onde, em primeiro lugar, vou mostrar como encontrei a administração pública — prestar contas a população. Não houve prestação de contas ao povo até hoje. Onde foram parar as denuncias que Luiziane Lins fez quando era vereadora? Não é fingir participação através de um programa de Orçamento Participativo que faz a população se mobilizar, se unir e discutir os problemas para depois destinar parcos recursos. Isso é o que eu chamo de desonestidade. É usar o dinheiro público para fingir que existe um hospital da mulher.

Fale! NA sua opinião está faltando vontade política ou não se faz por falta de recursos?
Patrícia Saboya. É totalmente possível fazer 10 vezes mais do que está sendo feito atualmente pela Luiziane Lins, porque o orçamento público funciona como um orçamento doméstico e é estabelecido pela dona de casa. Ela, como gestora do lar, define prioridades para o orçamento familiar. O dinheiro é dividido conforme as necessidades mais urgentes. O dinheiro da escola, da comida, do gás. Isto é governar. É ver onde está o problema, analisar todos os ângulos, discutir a melhor forma de resolver, definir metas e prioridades para serem trabalhadas pelo orçamento geral. Quem estabelece essas prioridades são as pessoas que moram na cidade e precisas de saúde, habitação, educação, segurança, trabalho, lazer. Não adianta o político mobilizar a cidade no modelo do Orçamento Participativo, porque o que está sendo feito é fictício. A participação popular acontece porque a prefeita ou o prefeito é bonzinho. A participação é fundamental para que as coisas aconteçam de verdade. E é lei. Portanto, deve ser cumprida. Estamos vivendo em uma cidade onde as leis de gestão e planejamento não são cumpridas.

Fale! Fortaleza cresce e continua repetindo os mesmos erros em relação a Trânsito, uso e ocupação do solo, código de posturas. o que A senhora pretende fazer?
Patrícia Saboya. Sei que todos podem pensar que é mais uma promessa eleitoral, mas eu sei que posso alterar essas deficiências, pois sendo gerente tenho autonomia para isto. Se o povo me escolher como gestora de Fortaleza, nada mais justo que corresponder e mudar, melhorar as coisas, sempre ouvindo a opinião pública. A prefeitura tem que aprender a ouvir os quase três milhões de habitantes. Dentro do meu projeto de reforma administrativa, está contemplada também a grave questão da poluição sonora e a poluição visual.

Fale! Como s senhora pensa em financiar os serviços indispensáveis à qualidade de vida da cidade?
Patrícia Saboya. Os recursos oriundos da própria prefeitura serão bem empregados. É claro que uma cidade como a nossa custa dinheiro. Não há como hoje administrar apenas com os recursos existentes em caixa. É preciso ir buscar parcerias com a iniciativa privada, não somente na questão de entretenimento ou para o patrocínio de shows, como tem acontecido. Estou levantando essa questão, não porque a população não mereça lazer ou um show, como do Roberto Carlos que custou 2.5 milhões de reais. A idéia da parceria com a iniciativa privada, poderia ser extendida para desenvolver projetos bons voltados para os serviços essenciais ao povo, como recuperação das praças, uma coleta decente de lixo, recuperação dos elevadores do Hospital IJF. Para se ter uma idéia, o custo total para arrumar os dois elevadores que caíram no hospital fica em torno de 600 mil reais. Eu acredito que é muito melhor deixar um hospital funcionando a um custo bem menor do que um show com um preço exorbitante como foi do Roberto Carlos. Se fosse realizada uma enquete junto à população, com toda certeza, ela preferiria um hospital em pleno funcionamento.

Fale! PARCERIAS COM O SETOR PRIVADO SERÃO REGRA NA SUA GESTÃO?
Patrícia Saboya. A melhor maneira de financiar os serviços indispensáveis é por meio de alternativas, e uma delas é com a ajuda da iniciativa privada. Outro absurdo de desperdício de dinheiro público é o anúncio nos meios de comunicação do lançamento de um hospital na capital, com uso de computação gráfica. Quanto foi gasto com essa propaganda? O dinheiro gasto com essa peça publicitária daria para pagar o concerto dos dois elevadores do hospital IJF. Não é um absurdo tentar dar uma idéia de realidade a uma obra que não existe? Que administração é esta que não tem prioridade, que não respeita a angustia e o sofrimento das pessoas? Cerca de 40% da população não tem acesso ao serviço público de saúde em Fortaleza.

Fale! Não existe uma política de coleta seletiva do lixo. Há desperdício no serviço de lixo, uma atividade privatizada e onerosa?
Patrícia Saboya. Em minha opinião, há sim um grande desperdício neste serviço. As experiências mundiais mostram que você pode aproveitar todo esse material que é jogado fora. Ele pode ser reciclado, reaproveitado, atuando dentro das leis ambientais. Mas infelizmente a nossa cultura ainda não tem por hábito tratar essas questões tão sérias e primordiais. No caso do lixo propriamente dito, não há o costume de informar as pessoas sobre educação ambiental. Elas desconhecem a importância disso e o poder público também não tem se mobilizado nesse sentido.

 
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