Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito chega às telonas como o primeiro filme cearense a ser distribuído pela Fox Filmes do Brasil. Orçado em R$ 2 milhões, o longa conta a vida do espírita que até hoje mobiliza projetos sociais e orações. O mês de agosto será de homenagens ao médico, pois além do filme, a obra “A Casa Assombrada”, de sua autoria, será relançada na Bienal de São Paulo.
O primeiro filme cearense distribuído por um conglomerado de renome internacional – a Fox Filmes do Brasil -, Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito, será lançado, não por acaso, no dia 29 de agosto, aniversário do espírita famoso. Orçado em R$ 2 milhões, o longa-metragem traz a história do aclamado “Médico dos Pobres”, um dos apelidos que a população carente atribuiu ao espírita pioneiro no Ceará. O filme conta com a participação de atores nacionalmente conhecidos, como Carlos Vereza, incorporando o personagem título na maturidade, Caio Blat, Lúcio Mauro, Paulo Goulart Filho e Ana Rosa, além de um casting de atores cearenses. Um dos diretores da película, Glauber Filho, diz que Carlos Vereza interpretou com tanta fidelidade que, por muitas vezes, a produção o chamava por “Bezerra”. “Era incrível. O filme foi muito bem constituído e a interpretação do Vereza, fundamental”, comenta. A primeira exibição de cunho nacional acontece em homenagem ao aniversário de Bezerra de Menezes, nascido em 29 de agosto de 1831.
“Conseguimos 40 cópias do filme pela Fox”, soma Glauber. É um número excelente, visto que filmes alternativos, com algum apoio, conseguem 20 cópias. A Globo Filmes, por exemplo, com toda a jogada de marketing, aposta em 40 cópias também. Cidades com cerca de três milhões de habitantes receberão Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito. Fortaleza, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro estão na lista.
Durante dois anos, a produção trabalhou com roteiros, filmagens e montagens para ter o resultado esperado. De acordo com Glauber Filho, o filme chegou a ser apresentado em algumas distribuidoras e sempre foi bem recebido. “Mas a Fox assistiu na íntegra e acreditou na projeção que o longa terá”, relata.
Geralmente, o diretor é o interessado em mostrar a sua idéia, através de um edital, para alguma organização. No caso de Bezerra, a Organização Não Governamental Estação da Luz já buscava alguma temática espírita para realizar um filme. Após algumas reuniões, o então diretor propôs que falassem sobre Bezerra de Menezes, sempre lembrado pela doutrina. A Ong encomendou o longa e o resultado pode ser conferido no próximo dia 29. “A Estação da Luz já apresenta um histórico de trabalhos englobando valores que hoje estão meio perdidos”, afirma. A entidade está envolvida com projetos de arte, como livros e peças teatrais, e o filme foi uma idéia expansionista, para chegar a um público maior que talvez desconheça a história de um personagem que marcou uma época no país. “Eu não conhecia a vivência deste homem e tive que levantar um roteiro em três meses. É impossível não se encantar com a história de vida dele; um exemplo.”. Glauber ainda explica que, apesar do curto prazo, o longa foi realizada com extrema harmonia. “A sociedade reforça valores materiais e percebe-se uma espetacularização da violência no campo audiovisual. Abordamos o oposto. Sabemos que o Brasil tem várias religiões, e o povo acaba misturando um pouco de cada”. Segundo Sidney Girão, presidente da Ong, o filme traz um exemplo de vida de um homem dedicado, irrestritamente. “Queremos que o público se espelhe no comportamento do Dr. Bezerra de Menezes, que vejam nele um exemplo”. Sidney observa que, apesar do cunho espiritual tanto da vida do médico quanto da própria Ong, a película não apresenta teor doutrinário.
A priori, o filme seria um documentário sobre a vida do cearense do município de Freguesia do Riacho do Sangue, atualmente Jaguaretama. Mas, quando o filme teste foi exibido pela primeira vez, no Fórum Nacional Espírita, os espectadores tiveram uma predileção pelo gênero ficcional “totalmente baseado em fatosreais”, como afirma Glauber. Vários documentos, como jornais, revistas e relatos, foram levantados para a viabilização do longa. “A colaboração do Luciano Klein (biógrafo de Bezerra) e da roteirista Andréa Bardawill foram imprescindíveis para chegarmos ao resultado que queríamos”, conta. O filme passou a ser uma narrativa, contada pelo próprio Bezerra de Menezes, amarrado aos fatos comentados por pessoas e jornais da época. De acordo com Glauber, “é como se cada documento fosse um pedaço dele”. A parte documentário do filme não foi descartada: uma das opções a mais que o DVD oferecerá são os relatos, em forma de um documentário,de estudiosos da doutrina e biógrafos de Bezerra, como Jorge Damas, Luciano Klein e a atriz Nicete Bruno.
A história do cearense começa em 29 de agosto de 1831. Desde cedo, Adolfo Bezerra de Menezes, filho de um tenente-coronel da Guarda Nacional, mostrava determinação. Tanto que partiu para o Rio de Janeiro, sozinho e com pouco dinheiro, atrás do sonho de se tornar médico. O longa relata as dificuldade de um nordestino enveredando pelos caminhos do sudeste, sem dinheiro e abrigado em uma república de estudantes que não estava de acordo com as suas preferências morais. Mas nada disso o abateu. Conseguiu se formar na área desejada e tornou-se doutor. Bezerra de Menezes também seguiu caminhos políticos, mas já naqueles velhos tempos, em meados do século XIX, afirmava que “a sociedade está doente”. Foi eleito vereador e deputado em várias legislaturas e defendeu as idéias abolicionistas. Mas percebeu que a política brasileira era tendenciosa, com jogos de poderes. Logo viu que a corrupção era a alma do negócio e rapidamente saiu do caminho.
Bezerra de Menezes se tornou o “Médico dos Pobres” por seu reconhecido trabalho na área, atendendo a população carente sem restrições e sem pedir nada em troca. Conhecido por jamais negar socorro a quem batesse à sua porta, Bezerra de Menezes tornou-se um exemplo de homem e escreveu uma história de vida marcada pelo amor e pela caridade. Ele dizia que “um médico não tem o direito de terminar uma refeição, nem de escolher hora, nem de perguntar se é longe ou perto, quando um aflito qualquer lhe bate à porta”. Os espíritas acreditam que, mesmo desencarnado, Bezerra de Menezes continua ajudando, independente da hora ou do momento, àqueles que oram por ele.
A película é fiel aos principais acontecimentos na vida do “Médico dos Pobres”, especialmente aos que estão diretamente ligados aos preceitos do espiritismo. “Certa vez, ele estava com muitas dificuldades financeiras e recebeu a visita de um estudante que nunca viu na vida, oferecendo dinheiro adiantado em troca de aulas de matemática. Bezerra relutou, mas acabou aceitando.”. Segundo Glauber, o médico esperou o aluno por semanas, e este nunca apareceu. Bezerra de Menezes conseguiu se manter por alguns meses com aquela “caridade”, mas não entendeu como aquilo lhe aconteceu. “Ele (Bezerra) aparece como se o universo conspirasse a favor dele, como se um reforço espiritual o cercasse”, comenta.
Mas o envolvimento do personagem-título com o espiritismo acontece, de fato, quando Dr. Carlos Travassos lhe presenteia com O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, propulsor da doutrina no mundo. O médico se concentrou na leitura durante uma viagem de trem, por não ter outra distração. A surpresa é que, para ele, nada daquilo lhe parecia novo, mas sim óbvio. Assim, de acordo com sua biografia, disse: “Preocupei-me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou, mesmo como se diz vulgarmente, de nascença”. Batizado católico, o médico anunciou, publicamente, que seguiria a doutrina espírita. A partir deste momento e durante sete anos, começa a escrever artigos do gênero no jornal O Paiz, fonte de pesquisa detalhista usada pelos produtores.
Os eventos que marcaram as gravações são de causar arrepio. Queda de energia, luzes inexplicáveis, presenças sentidas, coincidências e até cirurgia espiritual. As curiosidades do set de filmagens estarão presentes quando o DVD for lançado. Glauber Filho diz que alguns fatos interessantes aconteceram durante o período. “Uma das pessoas da equipe quase desiste do filme, porque sentia muitas dores e precisava de uma cirurgia. Mas ele foi curado espiritualmente”, afirma o diretor, sem maiores detalhes. “Ele pediu anonimato. Não quer especulações. Alguns são descrentes e existem muitos que usam o espiritismo de forma incorreta”, explica. Mas, para os espíritas, seria fundamental que o fato fosse devidamente divul-gado. “Acho que é um estigma que quem passa por isso deve correr. Faz parte da “benção”, afinal, se os testemunhos não forem dados, quando o resto da população, as outras pessoas, vão conhecer, se aproximar, ou se interessar?”, conclui o jornalista e espírita Omar Jacob.
Para algumas cenas, seriam necessários móveis de época. Após muita procura, o diretor afirma que chegou a um tabelião de móveis em Baturité, região serrana do Ceará, e ali encontrou os móveis que precisava. “Mas o dono estava irredutível. Não queria emprestar. Então comentei: ‘poxa, as gravações do Bezerra vão ficar sem os móveis’. Naquele momento, o senhor perguntou sobre o que era o filme e, após ouvir a resposta, começou a chorar. Ele disse que sofreu um grave acidente quando era criança e quase morreu. Seu pai fez orações a Bezerra de Menezes e ele acredita que isso o curou”, diz emocionado. Ele ainda disse que o pai queria agradecer ao “médico dos pobres” de alguma maneira, mas não sabia como. Acredito que após tanto tempo, ele encontrou uma ótima maneira de ajudar”, afirma o diretor. O dono do tabelião já havia cedido quando descobriu outra coincidência: o ator que tanto admira, Carlos Vereza, faria o papel principal. “Fizemos um encontro com eles, conversamos. Foi muito especial”.
As gravações do longa passaram por cidades interioranas do Ceará, Rio de Janeiro e Pernambuco, reconstituindo as imagens do século XIX. O filme foi realizado com avançada tecnologia digital e finalizado em 35 mm.
Vale à pena conferir e prestigiar uma nova era do cinema cearense, com um filme que explora a boa vontade e um exemplo de vida. Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírita aparece como temática ideal para dar início a esse novo tempo.
Glauber Filho realizou vários curtas-metragens, entre eles “A Doença do Poço”, “Borracha para Panela de Pressão” e “San Pedro, um Navio a Deriva”. Produziu e dirigiu o longa “Oropa, França, Bahia”, premiado pela Fundação Vitae e MacArtur. Recebeu diversos prêmios em festivais nacionais e internacionais de cinema, como o Festival Internacional de Figueira da Foz (Portugal), Festival de Cinema de Tondela (Portugal) e Videofest (Berlim- Alemanha). Como diretor publicitário, atuou em grandes produções cearenses e também presidiu a TV Ceará entre 2003 a 2006.
Joe Pimentel é fotografo e diretor. Já atuou como Diretor de Fotografia e Assistente de Direção de diversas produções, como “Sertão das Memórias”, “Um Cotidiano Perdido no Tempo”, “Villa Lobos - Uma Vida de Paixão”, “Milagre em Juazeiro” e “O Noviço Rebelde”. Como diretor, realizou vários curtas, entre eles “Retrato Pintado”, filme que lhe rendeu as maiores premiações do cinema nacional como melhor filme e direção nos festivais de Brasília, Recife, Curitiba e Ceará. Atualmente, ele finaliza o curta “Câmara Viajante” e dirige a Trio Filmes.
Elenco
Bezerra de Menezes:
Carlos Vereza
Bezerra de Menezes Jovem:
Magno Carvalho
Bezerra de Menezes Criança:
Lucas Ribeiro
Antônio Adolfo Bezerra de Menezes:
Cláudio Raposo
Dona Fabiana:
Juliana Carvalho
Maria Cândida:
Mirelle Freitas
Cândida Augusta:
Alexandra Marinho
Ficha técnica
Classificação: Ficção (longa-metragem)
Duração do filme: aprox. 75 min
Ana Rosa, Everaldo Pontes, Larissa Vereza, Lúcio Mauro, Pedro Domingues , B. de Paiva, Taís Dahas, Fernando Piancó, Ana Cristina Viana, Cristiane de Lavôr , Rodger Rogério, Renato Prieto, WJ Solha, Robério Diógenes, Romário Fernandes, Andrea Piol, Fernando Teixeira, Rutílio Oliveira, Tarcísio Pereira, João Dantas, Nanda Costa, Fernando Catoni.
Participação Especial:
Caio Blat
Paulo Goulart Filho