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Cultura
Cinema
Um Batman
Mais Sombrio


Heath Ledger

Filme estréia envolto
em mistério e morbidez

O filme “Batman — O Cavaleiro das Trevas” chega às telas envolto em enorme expectativa. O primeiro filme dessa nova série superou as expectativas e acalentou os fãs de Bruce Wayne, que já estavam frustrados com os últimos filmes feitos sobre o personagem. O segundo e talvez o maior motivo de toda a expectativa e loucura pra se assistir ao filme é também motivo mórbido: a última atuação de Heath Ledger.


Traillers, fotos e materiais promocionais indicam a vinda de um grande filme, com boas atuações, cenários, figurinos bem cuidados e uma história sombria e bem amarrada: digna das melhores histórias do Batman escritas por Alan Moore e que mostram o Coringa (personagem de Ledger) em todo o seu sadismo e ápice de loucura e insanidade.
O fato é que já se fala em Oscar Póstumo para o jovem Heath Ledger, que morreu provavelmente de overdose de medicamentos. Os comentaristas de cinema estão em polvorosa, lançando notas e críticas a rodo, falando de sua marcante e sublime atuação. Some-se a isso a polêmica gerada em torno da cena na qual o Coringa se esconde dentro de um saco de cadáveres.
Em 2006, Ledger concorreu ao Oscar de Melhor Ator, pelo caubói homossexual do filme “O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee. Perdeu para o excelente Philip Seymour Hoffman, ganhador da estatueta por sua interpretação de Truman Capote no filme “Capote”.
Sem querer tirar o mérito de Hoffman, será que Ledger não ganhou por ser considerado pela Academia jovem demais? E que por isso teria ainda toda uma vida pela frente, com novos filmes, papeis marcantes e atuações brilhantes no futuro?
Talvez sim, talvez não. Quem pode saber? O fato é que o Oscar é famoso por suas injustiças, basta lembrar de Charles Chaplin, Alfred Hitchcock, Orson Welles, Stanley Kubrick e os casos de “Oscar’s de correção”, quando o indicado merecia ter ganho em uma ano no qual teve uma atuação ou direção ou filme brilhante, perdeu por injustiça, loucura ou sei lá o que dos jurados e acaba ganhado anos depois por outro trabalho menor, bom também, mas incomparável ao merecedor original do prêmio.
É preciso muita calma nessa hora, pra que a fama e a expectativa em torno do novo filme (leia - se do Coringa) da franquia “Batman” não acabe por gerar frustrações, declarações precipitadas, não apague o brilho dos outros atores da produção, como Christian Bale (Bruce Wayne - Batman) e Aaron Eckhart (Harvey Dent o futuro Duas Caras - do excelente “Obrigado Por Fumar”), e que o mito não seja superior a realidade. E que Heath Ledger descanse em paz.
Camila Nunes



Uma voz para sempre
A admiração pela vida e obra do cantor e compositor Waldick Soriano levou a atriz Patrícia Pillar a sair dos palcos e ir para trás das câmeras. Atrás dos refletores, a nova cineasta encarou a façanha de contar a história desse cidadão baiano, polêmico, conservador por um lado e transgressor de alto quilate por outro.
Patrícia conta que o documentário “Waldick, Sempre no meu coração” é, na verdade, o “filme de uma fã sobre seu ídolo”. Apesar da riqueza de depoimentos e fatos da história do artista, Patrícia ressaltou emocionada que “É a minha visão sobre o Waldick, porque uma vida não cabe num filme”. Ela completa que não havia planejado o documentário, ‘ele simplesmente nasceu’. A produtora conta que passou a acompanhar o cantor em todos os seus shows e então ‘apagaram-se as luzes e a vida real nasceu na tela’. Patrícia destaca que, quando viu que havia material suficiente do cantor, ela partiu para o grande desafio. “Eu sempre gostei de projetos novos. Não planejei me tornar cineasta e produtora, simplesmente me aventurei. Aliás, esse é o meu jeito de ser para o desespero de meus diretores. Gosto de dar palpites, pergunto sobre tudo, gosto de ajudar. Mas eu adorei enfrentar todas as dificuldades. A falta de dinheiro foi o maior empecilho, mas tudo o que eu vivi por traz de uma câmera é indescritível”, relembra.

Para evitar que o projeto ficasse apenas no papel, a produtora saiu à campo e batalhou duramente durante dois anos e meio para reunir material e dinheiro necessários para realizar o seu filme. A atriz mostrou possuir mais que talento e criatividade na história de sua carreira. Ela conseguiu o mérito de produzir “Waldick, Sempre no meu coração” com apenas R$ 500 mil reais em cash, além das gravações de um CD e do DVD Waldick Soriano ao Vivo. O DVD é resultado da gravação de dois shows do cantor realizados no Cinema do Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro, em Fortaleza (CE), em 2006, cujas imagens foram utilizadas para compor algumas cenas do documentário. “Fico até meio envergonhada de comentar este fato, mas esses foram o máximo de recursos que pudemos captar. E olha que nós saímos literalmente de pires na mão”, conta rindo a produtora.
Segundo Patrícia, ela e sua equipe tiveram que fechar a mão em todos os sentidos. “Em alguns momentos, me senti muito sovina. Tivemos que improvisar tudo, aproveitar o que tínhamos em mãos, tudo na base da economia mesmo”. Um exemplo dessa economia acirrada é o cenário da gravação do DVD de Waldick, em 2006. “Tudo foi feito no improviso”, relembra. “A decoração do fundo do palco foi feita com pratos de plásticos de festas de aniversários, onde foram pregadas pedras coloridas para dar várias tonalidades”. Rindo bastante do fato, Patrícia Pillar acrescenta que as pedras foram compradas na feira que fica na Beira-Mar, em Fortaleza, no Ceará. “E o efeito foi ótimo. Quando as luzes foram direcionadas sobre as pedras, um ambiente com várias cores e luminosidade foi criado”, explica a cineasta.
Mas a batalha valeu a pena. O documentário de 58 minutos dirigido pela atriz foi o grande destaque do 18º Cine Ceará, exibido no dia 12 de abril, que levou a platéia do Centro Cultural SESC Luiz Severiano Ribeiro ao delírio. Waldick foi aplaudido várias vezes durante a projeção, principalmente quando o cantor interpretava alguns dos seus sucessos, como “Eu não sou cachorro, não”. Os depoimentos do artista durante a estréia nacional do .documentário conquistaram o público, que exaltou a qualidade da produção. Muito natural esse fato, afinal, o autor de “Tortura de Amor”, entre muitos outros sucessos, que em maio completa 75 anos, é um ídolo popular. Em mais de 40 anos de carreira, com mais de 500 canções e composições de sua autoria, o músico emocionou, divertiu, segurou muita dor de cotovelo e alimentou muito amor, muita embriaguez pelo Brasil todo.
“Eu redescobri Waldick há cinco anos quando ouvi uma música do cantor em uma rádio. Mas minha paixão vem desde criança, quando eu ouvia aquele ‘vozeirão’ que enchia o ambiente. Então, fui pesquisar e descobri que ele também é compositor. Pouco se sabia sobre ele, não havia muitas informações, por isto que foi tudo muito trabalhoso, sem contar que ele é uma pessoa reticente, fechada dentro de si mesma. Foi um longo processo para chegar até ele. Eu só recebia o que ele me dava, jamais o invadi. O que tem no filme foi o que ele me deu.” explica a atriz de novelas famosas como Rei do Gado, Cabocla e de filmes como O Quatrilho e Zuzu Angel.
Ela garante que comprou todos os LPs do cantor. “Aí foi o começo de tudo. Ele é uma pessoa que não se curvou diante da vida” Patrícia, sorridente, fala com muito carinho de seu personagem. Ao assumir a câmera, se despiu do papel de fã assumida do cantor, muito popular nos anos 60 e 70, para reapresentá-lo com fidelidade, com um olhar terno, mas isento e até mesmo duro em alguns momentos. É com sensibilidade feminina, e muito respeito pelo personagem, que Patrícia consegue extrair camadas interessantes dessa vida. E o que se vê na tela é um Waldick corroído pela solidão. E é em algum lugar entre o frágil e/ou embriagado homem idoso e a sombra mítica do chapéu de caubói sob os holofotes do palco que Patrícia Pillar encontra o seu Waldick Soriano: um personagem e tanto. A câmera de Patrícia trata de perceber todas as contradições de um artista popular, hoje um tanto esquecido, de notar as dificuldades de relacionamento de um poeta dos sentimentos, de documentar a dor inerente ao envelhecimento, aos dramas familiares, à doença e ao declínio do sucesso. “Procurei ressaltar não apenas o cantor e compositor, mas também o homem, o cidadão. Dessa forma, mostrei um pouco da essência do próprio brasileiro, do brasileiro popular.” afirma a cineasta.

Ele foi boêmio, mulherengo, teve 14 esposas oficiais, mas terminou sozinho, dizendo que não encontrou ninguém que possa dizer a ele: “Estou contigo.” Há boa dose de melancolia no filme, às vezes tão engraçado quanto triste. “Durmo sozinho. Meu companheiro é o travesseiro”, confidencia o astro resignado às câmeras. A história transcorre em meio a depoimentos de mulheres magoadas, e ainda apaixonadas, que ajudam o espectador a entender as razões da solidão que acompanha Waldick na velhice. Sem nunca perder a ternura pelo personagem, Patrícia vai construindo o enredo que forma retrato sem retoques do ídolo formado na universidade da vida, como ele mesmo diz. “A causa de tanta solidão e dor é um grande amor que ele teve. Eles se casaram, mas infelizmente ela morreu dois meses depois do casamento. Ele não confirma abertamente esse fato, mas isso realmente aconteceu”, conta a produtora.
Patrícia Pillar revela-se uma cineasta de mão cheia, pois sua câmera nem vampiriza nem idealiza Waldick, sua câmera não se coloca em posição superior nem decide o que é ou não “adequado” filmar. E emocionada diz ainda que não procurou glamourizar a história. “Eu quis mostrar os momentos de glória, mas também os conflitos que envolveram a vida desse homem que é a cara do Brasil. Antes de tudo, ele é um poeta. E é nessa poesia que ele encanta.”, diz a produtora.

Caubói Waldick
Ao invés de “pedaços significativos de Waldick”, a narrativa se constrói de instantes realmente fortes e únicos. O momento em que esta virada de olhar se torna vibrante, sem dúvida, é a cena com o filho de Waldick em um bar em São Paulo. “Foi difícil deixar a cena dele com o filho no bar. Porque eu havia conquistado a confiança e o carinho dele. Mas aquilo era parte dele, de sua vida. Eu não seria fiel a ele, se não colocasse os dramas familiares de sua vida, uma vez que ele nunca pediu que nada fosse colocado na tela ou que tirasse isto ou aquilo” explica. A cineasta mostra que ali, naquele momento tão pessoal vivido em frente à câmera, o filme desvenda seu desejo de olhar de frente para o homem que documenta.
Hoje, ele é um artista recluso no cenário musical, mesmo assim suas canções continuam sendo tocadas e cantadas, principalmente no Nordeste, região onde o cantor nasceu. “A voz de Waldick nunca deixou de amaciar as feiras nordestinas, as tendas de ciganos, os bares e as gafieiras de subúrbio. Aquele vozeirão é eterno”, enaltece Patrícia. Estigmatizado por cantar “brega”, Waldick é um grande poeta que fala sobre paixão e traição, amor e saudade, se instaurando no cenário popular com grande vitalidade. “Música romântica”, ele prefere chamar. E não se incomoda que o chamem de brega. “Já me chamaram de cafona, hoje é brega. Mas, no fundo, sou apenas romântico.”, explica sorrindo.
O estrelato foi atingido depois de muito preconceito e sua paralela popularidade oculta uma história de um brasileiro que, como tantos, precisou trabalhar um bocado para sobreviver. Waldick Soriano protagoniza uma história de vida fascinante que parte do interior baiano, onde foi lavrador e garimpeiro, e vai até São Paulo, onde começou a vida como engraxate e servente de pedreiro até gravar seu primeiro disco. No documentário, Waldick conta de onde veio a inspiração para montar um vestuário um tanto exótico. Ele fala que assistia aos filmes de faroeste e queria ser como um daqueles personagens à cavalo, com o lenço cobrindo a boca, correndo no solo poeirento. “Eu era fã daquele caubói do cinema, Durango Kid, e quis criar uma imagem igual. Como não podia usar máscara, botei óculos escuros, que uso de dia ou de noite.”, fala o artista.
O filme cresce quando Pillar consegue desarmar o caubói e fazê-lo sair da personagem que encarna como uma armadura. Em emocionada entrevista, uma das últimas que concedeu para a cineasta estreante, Waldick abre o coração corroído por mágoas e desilusões familiares e tira lágrimas dos olhos do espectador ao se resignar diante da solidão, fiel companheira. Quando sobem os créditos finais, ao som de Cavalgada, de Roberto e Erasmo Carlos, na voz de Waldick Soriano, o rei do Brasil interiorano está nu, desvendado. E segundo a cineasta “sempre continuará rei no meu coração”.
Patrícia resume seu sentimento: “Fiquei feliz por ter feito esse filme, porque sei que estamos resgatando um artista que tem várias pérolas da nossa música popular e que, sem razão, sempre viramos as costas”, comentou a nova cineasta. Quanto à distribuição do filme, Patrícia garante que ainda não pensou nisso. “A gravação do filme, para ficar mais barata, foi feita digitalmente. Mas como eu quero que o povão assista o documentário, vou pensar em várias alternativas para que todos vejam. Estou idealizando meios como um caminhão itinerante exibindo meu filme pelo país a fora. Quero também realizar uma sessão em Quixadá, no Ceará, com data ainda para o primeiro semestre deste ano. Sei também que ele é transmitido pelo Canal Brasil” fala a atriz.
Além do filho Waldemar Soriano, veio Valda Soriano, um das ex-esposas que Waldick teve e que, oficialmente, ainda é casada com ele. Amigos do artista também estiveram presentes. Por problemas de saúde, o cantor e compositor, que havia confirmado presença, não teve a oportunidade de assistir ao filme na noite de estréia, mas, segundo Pillar, ela mesma iria assistir junto com ele, em sua casa, no dia seguinte, 13 de abril. O marido de Patrícia Pillar, o deputado federal e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, também esteve presente para homenagear o sucesso da nova cineasta.
“Waldick, Sempre no meu coração” tem edição do também cantor e compositor baiano Quito Ribeiro, que participa do roteiro ao lado de Patrícia e do cearense Fausto Nilo, sob a fotografia de: Leandro Hbl, Miguel Vassy e Pedro Urano. A produção é da própria Patrícia Pillar e de Mariza Leão.

 

Assista alguns
trechos do documentário

 
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