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Política

Para aqueles nascidos após 1960, nada mais natural do que afirmar: ‘a capital do Brasil é Brasília’. Essa simples frase foi motivo de um embate nacional há mais de cinquenta anos, dividindo o país com o ceticismo daqueles que, com razão, duvidavam da construção de uma cidade inteira, equipada para receber os centros de decisão do Brasil, em menos de quatro anos. Do outro lado, estavam aqueles que embarcaram numa missão inédita e, por sua magnitude, digna de tanto ceticismo. Atraídos pela liderança de Juscelino Kubistchek, a legião que comandou a construção de Brasília era heroicizada e difamada ao mesmo tempo, enquanto a nova capital era erguida.
A ambição política e um projeto de redistribuição populacional guiavam o 21º presidente da república, cujo governo foi marcado pela construção de uma nova capital federal para estimular o desenvolvimento do centro-oeste, ainda pouco habitado. Antes mesmo de ser presidente, Brasília era ponto chave do plano desenvolvimentista de JK. O sucesso ou fracasso desse plano dependia da construção da cidade – o legado governista e o futuro político do presidente Bossa Nova dependiam da inauguração triunfante de uma Brasília moderna e veloz.
Mobilizando os quatro cantos do País, o projeto colossal foi iniciado. Para isso vieram os candangos do norte e nordeste, trabalhadores que construíram a cidade trabalhando dias inteiros, mesmo nos fim de semana e feriados, e não puderam usufruir de suas próprias construções. As más-condições de trabalho, as longas jornadas e o posterior isolamento dos trabalhadores nas regiões periféricas de Brasília antes mesmo de sua inauguração, são a parte mais sombria das memórias da formação da cidade.
Quando, em 1956, o Congresso Nacional aprovou a criação da nova capital e da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, a Novacap, todo o processo se deu com uma velocidade estranha às obras públicas. Só naquele ano JK tinha visitado a região que seria a capital pela primeira vez. A mata fechada do cerrado, a falta de rodovias ou ferrovias dificultava e encarecia a construção, até hoje sem estimativa confiável de seu custo astronômico, que acarretou em déficits sentidos pelo sucessor de Juscelino, Jânio Quadros. Mas as obras não podiam parar, e a burocracia do governo inexistia para as construtoras e fornecedores de Brasília.
Para a nova capital, tudo era exceção. Os envolvidos na empreitada de JK, por pouco mais de três anos, só tiveram olhos para o cerrado. Alguns deram a vida por isso, como foi o caso do diretor da Novacap, Bernardo Sayão, atingindo por um tronco de árvore nas obras. A convicção inabalável no projeto, que representava muito mais do que somente uma cidade, era necessária. Surgiu então a noção do “Espírito de Brasília” - todos os trabalhadores da construção foram tomados por ele, e uma parcela significativa do País apoiava os mudancistas. Construir Brasília representava um feito inédito no mundo àquela época; em menos de quatro anos, transformar o pó do cerrado em metrópole era motivo de orgulho num país onde tudo era difícil e demorado.
O Chefe do Departamento de Urbanismo e Arquitetura da Novacap, Oscar Niemeyer, via a capital como a chance para um protótipo socialista de urbe, onde todos, independente de classe, compartilhavam dos mesmos bens materiais. E foi assim que viveram por algum tempo durante a construção, quando os acampamentos e a comida eram iguais para o idealizador de Brasília e os operários.
Lucio Costa, vencedor do concurso do Plano Piloto, elaborou o projeto com a perspectiva de cidade definitiva: “Era uma mudança definitiva e eu concebi uma capital, uma cidade, com características de capital, uma escala de capital e capital. De modo que quando um carioca ou um paulista que fosse lá, mesmo no início... não se sentisse numa cidade-província”, disse certa vez em entrevista. Menos celebrado do que seu colega Niemeyer, Costa foi o urbanista responsável pelo projeto de Brasília. Com um trabalho ambicioso e moderno, o arquiteto obteve pouco reconhecimento em vida, e morreu esquecido no Rio de Janeiro em 1998, com uma pensão modesta de servidor público.
Vencendo todos os obstáculos, Brasília desafiou os opositores ao ser inaugurada na data prevista pela lei do Congresso, aprovada para desmoralizar o presidente na ocasião, certa para os opositores, de atraso e esquecimento da obra. A oposição sabia que, eventualmente, tudo aquilo seria deixado para as moscas, como tantos outros projetos já feitos no País. Com a aproximação da data de inauguração, e claros indícios da vitória de JK, a oposição udenista tentou manobras até a última hora para impedir a mudança para a nova capital, o triunfo de JK e tudo o que ele representava. Liderada por Carlos Lacerda, que já havia declarado, “Ou Juscelino acaba com Brasília, ou Brasília acaba com ele!”, a UDN, e até facções do próprio PTB, partido aliado ao presidente, ainda no mês da inauguração, à 21 de abril de 1960, lutavam para instalar CPIs e inquéritos sobre os gastos das obras e a possível corrupção das construtoras envolvidas, as quais nunca ocorreram devido a falta de provas.
Para acabar com as teorias conspiratórias, montou-se uma indústria pró-Brasília: um noticiário radiofônico sobre o andamento das obras informava todos os cidadãos da veracidade do compromisso do governo, acalmando ânimos. Dezenas de edições da Revista Brasília foram publicadas com o mesmo objetivo, e palestras eram ministradas nas cidades sobre a construção. No dia 20 de abril, Juscelino deixava o Rio e o Palácio do Catete para o evento político que definiu seu legado, bem ou mal. A mudança da capital significava uma nova era na política brasileira, esperavam muitos.
A Brasília de hoje, com mais de 2 milhões de habitantes – número inimaginável para Juscelino – preparava uma grande comemoração para os 50 anos da cidade de construções monumentais, feita para deslumbrar seus visitantes em frenético ritmo urbano. Paul McCartney ou Madonna, era essa a dúvida no governo do Distrito Federal para o grande show de comemoração, quando o escândalo do ex-governador José Roberto Arruda, amplamente noticiado, diminuiu o ritmo e a magnitude dos eventos. A agenda oficial de comemoração contou com artistas brasilienses e nacionais, com destaque para Daniela Mercury e Paralamas do Sucesso na Esplanada dos Ministérios. Entre 17 e 21 de abril, o governo do DF desembolsou até R$10 milhões de reais na comemoração da capital. Só a metade da verba inicialmente prevista.
Niemeyer, o escultor da cidade, ainda a presenteia com novas obras, mas as cidades-satélites, a poucos kilômetros do Plano Piloto, mostram o lado perverso do convívio urbano, que desde sua inauguração no meio do cerrado há 50 anos, isola e esquece a população necessitada, e continua a prestigiar a classe política que habita as ruas pré-planejadas de Brasília.