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Economia

GUIDO MANTEGA

NO BRASIL, CRISE FICOU PARA TRÁS

Sempre prudente em suas opiniões sobre macroeconomia, o ministro Mantega arrisca afirmar, com base em dados do PIB, que a crise é coisa do passado no Brasil, mas defende ainda a presença do Estado como estimulador da economia

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não previu o início da crise mundial deflagrada nos Estados Unidos, a exemplo do economista Nouriel Roubini. Mas pare ele a crise financeira ficou para trás, no Brasil. O país está em processo “de franca” recuperação. “A economia brasileira já está crescendo de 4,5% a 5%”, comemora Mantega, para quem o sucesso brasileiro contrasta com as dificuldades enfrentadas pelas economias avançadas, que começam a dar sinais de retomada “lenta, difícil e gradual”. Um dos motivos da euforia de Mantega é que o PIB do Brasil cresceu entre 1,8% e 2% no segundo trimestre deste ano, na comparação com os primeiros três meses de 2009. Por conta disso, ele espera um crescimento de 1% do PIB neste ano, e espera aumento de 5% em 2010. “Estamos no rumo certo, sem necessidade de correção.” Para reduzir riscos na economia global, o Brasil através de Mantega defendeu, em Londres, na reunião do G20 — grupo de países em desenvolvimento —, que a intervenção do governo na economia seja mantida até que a recuperação global esteja consolidada.
Mantega não acredita na tese de possível recaída da economia mundial. Segundo ele, a retomada vai ocorrer em ritmos diferentes e demonstrar que os países avançados “são os mais debilitados” e que precisam dos emergentes puxando o crescimento. “Quem vai puxar o crescimento somos nós. Pode haver um ou outro país europeu que fique melindrado, aborrecido. Isso não vai impedir que o G20 se torne a instituição mais importante da economia mundial.”
O Brasil quer, e isso é consistente, a regulamentação do sistema financeiro internacional. “Não se consolidou ainda uma nova arquitetura com regras mais claras, com limites para a ação do capital especulativo. O Brasil já tem isso e eu vou apresentar uma proposta de como ter isso em escala internacional.” Nesta linha, estão as cobranças de aceleração no processo de reformas no Fundo Monetário Internacional (FMI) capitaneadas pelo Brasil num bloco de países emergentes. Por pressão do próprio grupo, a data da reforma foi antecipada de 2013 para 2011, mas Mantega quer que já fique claro, na reunião de Pittsburgh, nos Estados Unidos, que o percentual de cotas sairá das mãos dos países desenvolvidos.

"Ainda é cedo para abandonar a política anticíclica [quando o Estado gasta mais para estimular a economia]. O Brasil gastou 1% do PIB para reativar a atividade econômica, menos que os países desenvolvidos, e a economia ainda não tem condições de caminhar sozinha."

“Janeiro de 2011 é uma data boa, mas quero antecipar o início da dança. Propomos que 7% das ações que estão com os países ricos passem aos emergentes e que tenhamos igualdade acionária”, disse. Ele acrescentou que, com isso, países como Brasil, Índia e China podem pôr mais dinheiro no fundo. “Sabemos que, mesmo antes dessa crise, o Bric [grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China] e emergentes, já estavam à frente do crescimento. Depois dessa crise, isso será ainda mais verdadeiro.”
Mantega acredita que o fortalecimento do G20 em detrimento do G8 — composto pelos sete países mais industrializados do mundo e a Rússia — está vindo “espontaneamente”. “Nunca vi tanta reunião do G20. Já é o fórum mais importante da economia mundial e representa os países mais importantes do globo, mais de 80% do PIB [Produto Interno Bruto, a soma de bens e serviços produzidos por todos os países do planeta] mundial.”
A má notícia é que a taxa de desemprego nos Estados Unidos subiu para 9,7% em agosto, o maior nível desde junho de 1983, quando atingiu 10,1%. A previsão dos analistas era de que a taxa ficaria em 9,5% em agosto. Em julho, a taxa de desemprego foi de 9,4%, dado que não sofreu revisão.
No bloco econômico do Bric — expressão criada pelo Banco Goldman Sachs, para designar os quatro países emergentes com maior potencial de crescimento do mundo: Brasil, Rússia, Índia e China — Mantega defenda a poposta do Brasil de substituição do dólar por moedas locais no comércio entre os quatro membros do bloco. “Temos que amadurecer essa proposta, ou com troca em moeda local ou com swaps, créditos recíprocos em moeda local”. Estudos e projeções apontam que, até 2050, o Bric terá o mesmo peso dos países desenvolvidos (G6) na economia mundial.