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Infidelidade

Traição, parte do cotidiano
ENTREVISTA José Roberto Cabral e Tatiana Flores

De 2003 — quando lançaram o livro “Nem tudo são flores” — para cá o que mudou na percepção de José Roberto Cabral e Tatiana Flores em relação à infidelidade do brasileiro? Cabral, após o livro, lançou outro, “Eva veio antes” — uma fábula sobre a busca do complemento entre o feminino e o masculino — e atualmente se prepara para lançar uma fábula bíblica sobre perdão e redenção, intitulada “Revelações”. Atualmente, tem um blog no Jornal Alô Brasília, “Tratamento de Choque”, onde comenta – sempre de maneira irreverente – temas da psicologia do dia-a-dia. É esse estilo rebelde, irreverente, irônico, direto e sem floreios que ele colocou no livro e revelou nesta entrevista. Tatiana Flores é jornalista em tempo integral. Com passagens pelo Canal Rural, da NET, pela RBS TV, pela TV Nacional, pela TV Liberal e TV Globo—Brasília, atualmente é âncora do telejornal DF Record. Apaixonada pela arte de escrever, a autora avisa que “este é o primeiro livro de uma série inédita sobre relacionamentos.” A seguir, momentos da descontraída entrevista concedida pelos dois.

"As mulheres não só se expõem mais, como também se entregam mais, cobram mais, tudo ‘mais’."

Fale! Brasília. O que mudou no compotamento depois da publicação do livro?
José Roberto Cabral.
As pessoas e a mídia [jornais, revistas, programas de TV etc] passaram a me ver como o “psicólogo da infidelidade”, e toda vez que eu era chamado para alguma coisa, era para falar sobre isso. Também, no consultório, aumentou a demanda de pacientes cujos problemas se relacionavam a isso. De certa forma era frustrante, porque era um pouco limitador, eu queria também tratar de diversas outras questões. Mas por outro lado foi interessante porque me deu uma noção ainda melhor sobre o tema que escrevemos e a importância que ele tem no dia-a-dia das pessoas e das relações, porque a infidelidade não é só matrimonial. Temos outros tipos de infidelidade — a da amizade, a da família, e até mesmo a infidelidade partidária, por exemplo, que é um tema político atualíssimo. O que leva um político a trair suas promessas, sua legenda, sua plataforma política e, em última análise, seus eleitores? A cafajestada é basicamente a mesma, só que em proporções sociais enormes, e não apenas domésticas.
Tatiana Flores. Hoje sou uma mulher casada, grávida do meu primeiro filho e muito feliz. Continuo romântica, como quase todas as mulheres, contudo, mais pé no chão. Sabe aquela história de sonhar, mas não ser cega? É assim que acho que temos que viver...Tudo pode ser maravilhoso um dia e péssimo no outro. O grande lance é como lidamos com as dificuldades, com os problemas, com as diferenças, com a descoberta de uma possível traição. Acho que estou mais realista. Sei que posso ser feliz para sempre, que meu casamento pode durar pra sempre, assim como não posso prever o futuro, e sei que tudo pode desmoronar a qualquer momento. Simples assim, difícil assim. Deu pra entender? Na vida profissional, eu cresci muito. Mudei de emissora, passei de repórter a âncora de TV. As pessoas me pediram muitos conselhos porque sabiam que eu contei histórias verídicas, de pessoas como elas, que têm relacionamentos que dão certo ou não, como elas, que têm problemas sentimentais, como todos temos.

Fale! Brasília. Quem se expõe mais numa relação, homens ou mulheres?
Tatiana Flores.
As mulheres não só se expõem mais, como também se entregam mais, cobram mais, tudo “mais”...
José Roberto Cabral. E ainda sonham em encontrar um príncipe encantado, pena que existem mais sapos do que príncipes... Mas o ideal é sabermos enxergar em alguns sapos (não em todos, é claro!) príncipes, com características possíveis de aceitar. Ninguém é perfeito. Nem homens, nem mulheres. Os ideais de perfeição do amor impostos pelas fábulas, pelos filmes, pelas novelas etc só nos atrapalham. Nos fazem crer que as relações dão certo por milagre, e isso não existe quando se trata de pagar o aluguel, fazer compras no supermercado, criar filhos e aturar roncos e flatulências. Fazer uma relação dar certo dá trabalho. Exige paciência, sacrifícios, compreensão, amizade, perdão... enfim, como diz o título de um certo livro: “Não basta amar para ser feliz no casamento!”

"Incrível, mas apenas 7% dos homens voltam com as ex. Eles não têm paciência para consertar a relação."

Fale! Brasília. Como e quando surgiu a idéia do livro? De quem foi a idéia?
Tatiana Flores.
A idéia do livro foi do José Roberto, que me convidou para participar dessa empreitada. Ele como psicólogo e sexólogo, havia começado a escrever sobre o comportamento masculino, buscando explicar o comportamento dos homens em relação às mulheres, mas faltava uma visão feminina para o livro, e histórias reais que pudessem ilustrar os assuntos abordados na obra. Foi aí que entrou a minha participação, já que ele não pode expor os clientes dele, eu fui às ruas procurar personagens para o livro.

Fale! Brasília.Como vocês se conheceram?
Tatiana Flores.
Eu já fiz terapia com ele, que me foi indicado por uma amiga.. foi ótimo, mas brigávamos sobre tudo o tempo todo! Como ele sabia que eu era jornalista e tinha uma visão bem rebelde, ele me convidou para escrever o livro com ele. Aceitei imediatamente só pelo prazer de atrapalhar e de não deixá-lo escrever sozinho, impunemente, sobre os homens!

Fale! Brasília. De que trata e como é dividido o livro?
José Roberto Cabral.
O livro é dividido em mais de dez capítulos e o objetivo é desvendar o comportamento masculino, principalmente as mentiras masculinas. E tentar entender porque os homens mentem? Existem homens fiéis? Como identificar os infiéis? Como conhecer melhor com quem estamos lidando? Algumas mentiras são conhecidíssimas: ele diz que saiu com os amigos, que não se envolve com mulheres no trabalho, que mulher de amigo é igual a homem, que a bateria do celular acabou, que ele não quer mais nada com a ex, que o casamento com a outra está acabado e que a viagem foi só a trabalho, entre outras “histórias muito mal contadas.
Tatiana Flores. Outra mentira: mulher de amigo meu para mim é homem. Eles são homens, e têm desejo pela mulher do amigo, mas por uma questão de fidelidade à amizade (sim, eles são mais fiéis aos amigos que às mulheres), 75% deles ficam só na imaginação e não vão além de olhadas e conversas com a pretendente. 25% deles chegam às vias de fato. As mulheres são tão bobas quando estão apaixonadas que não enxergam como é fácil ser enganada. Muitas são traídas às oito horas da manhã de uma segunda-feira e não percebem, porque simplesmente não conseguem associar tal horário à possibilidade de traição. Hoje, com a Internet e os sites de relacionamento, a coisa piorou ainda mais.
José Roberto Cabral. O fantasma da maioria das mulheres é a ex deles. Uma verdadeira assombração que geralmente aparece. Mas por incrível que pareça, apenas 7% dos homens voltam com as ex. Eles não têm paciência para consertar a relação. A comprovação dos dados vem com histórias verídicas, depoimentos de homens que traíram, de mulheres que foram traídas, e uma análise psicológica feita a fundo. Para não acabar com a reputação da maioria dos homens, a Tatiana revela o depoimento de um homem que nunca traiu e que só se envolve quando existe amor. Sim, os fiéis ainda existem. E o amor, pode ter valor. Não adianta tratar a fidelidade como imposição. O parceiro que tenta controlar todos os movimentos do outro se estressa, irrita o companheiro e acaba muito mais por provocar uma traição do que por impedi-la. O que impede alguém de trair não é o fato de ter alguém vigiando, mas seus próprios valores e a carga de sentimento que ele deposita na relação estável que tem.

“eu não conto minhas
transas para ninguém...”

"Eu era salva-vidas em um clube. Conheci uma mudinha. No fã-clube dela tinham mais de vinte pessoas. Quando a conheci, ela ficou apaixonada. Mas eu não queria ficar com ela, senão ia fazer um estrago... Só que chegou o dia em que acabei dando um beijo nela na piscina, no meio de mais de trezentas pessoas, e a mulher só faltou falar. Ela saiu da piscina, escreveu um bilhete para eu encontrar com ela num determinado lugar, e eu fui. Cara, peguei aquela mudinha! E mais espantoso! Ela gritava! Eu pensei: ‘Desde quando você grita?’ (...) Meu Deus do céu! Eu pensei: ‘Se ela voltasse a falar, eu seria o ressuscitador da fala dela’. A mulher me fotografou mais de mil vezes e começou a colecionar as fotos. Ficou obcecada por mim. (...)”

Relato de um dos personagens entrevistados no livro “ Nem tudo são flores quando o assunto é homem, A verdade por trás das mentiras que os homens contam (Celebris, 144 pág. ).