Revista Fale! O que o secretário destaca como sendo o maior mérito da programação da IX Bienal em relação à VIII?
Auto Filho: Em primeiro lugar, uma maior e mais significativa participação dos escritores brasileiros consagrados pelo público leitor. Em segundo lugar, um destaque maior para os autores cearenses, selecionados pelo Fórum de Literatura do Ceará e pela Academia Cearense de Letras. Em terceiro lugar, a ampliação do programa Visitação Escolar, que este ano atenderá a 50 mil alunos da rede pública, filantrópica e comunitária de todo o Estado, com destinação de R$ 250 mil reais para a chamada “notinha legal”, vale-livro dado a cada um dos participantes.
Revista Fale! Enquanto leitor contumaz, quais os maiores méritos que o senhor atribui à literatura da homenageada dessa edição da Bienal, a escritora Rachel de Queiroz?
Auto Filho: Se entendi bem, a pergunta é dirigida ao professor e não ao Secretário da Cultura. O Secretário da Cultura considera a homenagem pela passagem do seu centenário de nascimento inteiramente justa. Como leitor, não compartilho da opinião de outros leitores e de alguns críticos segundo a qual Rachel de Queiroz é uma das maiores escritoras brasileiras. Entre os escritores nordestinos, dou preferência a Graciliano Ramos. No Ceará, o melhor ficcionista é Durval Aires e o grande contista é Moreira Campos No conjunto da literatura brasileira, meu escritor predileto é Machado de Assis e meu romancista preferido é Lima Barreto.
Revista Fale! O grande destaque que a programação infantil terá na Bienal em 2010 tem que motivações principais? Formar novos leitores seria a maior delas?
Auto Filho: As pesquisas sobre formação de leitores feitas no Brasil e em outros países têm revelado que a melhor política de formação de leitores é aquela que dá prioridade à criação do “hábito de leitura” a partir da primeira infância, tanto na escola como no lar. A programação infantil da Bienal tem como propósito mobilizar a infância cearense para participar ativamente da Bienal e motivar a meninada a ler.
Revista Fale! Como o Secretário avalia esses movimentos coletivos de formação de clubes de leitores? A Bienal terá um encontro desses clubes como evento paralelo...
Auto Filho: Na verdade, o encontro dos clubes de leitores, como também o encontro dos agentes de leitura e das bibliotecas públicas municipais, é evento considerado pela Secult de fundamental importância dentro do esforço do Governo Cid Gomes para tornar o Ceará um Estado de leitores. O apoio que a Secretaria de Educação do Estado e a Associação das Primeiras Damas do Ceará dão aos clubes de leitura ratifica e fortalece a política de formação de leitores da Secult.
Revista Fale! Porque o livro ainda é tão caro no Brasil? O que a Secult tem feito ou pretende fazer para facilitar o acesso do cearense aos livros? A interiorização dos investimentos em bibliotecas públicas pode ser uma boa alternativa?
Auto Filho: O livro continua caro no Brasil porque as tiragens são ainda muito pequenas. Só quando for criado um mercado permanente para os livros não didáticos, envolvendo dezenas de milhões de leitores novos, poderemos baixar o preço do livro. O Governo Cid Gomes vem promovendo a maior e mais ousada política de democratização do acesso ao livro não didático já feita no Brasil. Graças a essa iniciativa, tanto o Ministério da Cultura quanto as Secretarias de Culturas de diversos Estados alteraram suas políticas, passando a dar destaque à política do livro e leitura, com a instalação de bibliotecas públicas nos municípios. No Ceará já são 192 bibliotecas públicas em 184 municípios. Ainda temos os programas de bibliotecas escolares (tocado pela Seduc), bibliotecas comunitárias, bibliotecas empresariais e bibliotecas temáticas. A intenção é constituir, ao longo dos próximos de anos, um acervo de 12 milhões de livros no Ceará, superando o tamanho da população, que é 8,4 milhões de habitantes.
Revista Fale! Em que pé anda o projeto de criação do Instituto do Livro e da Leitura?
Auto Filho: A idéia da criação do Instituto já foi aprovada com entusiasmo pelo Fórum de Literatura do Ceará em encontro estadual realizado no final do ano passado. As demais instituições culturais do Estado, como academias, Instituto Histórico, associações de bibliófilos e bibliotecários também já manifestaram apoio à criação do Instituto. A Secult está concluindo o projeto de criação para submetê-lo ao Governador Cid Gomes ainda este ano.
Revista Fale! Considerando que este é o último ano desse mandato do Governador Cid Gomes, que balanço o senhor faz do trabalho desenvolvido em termos de incentivo à leitura e, de um modo mais geral, do seu trabalho à frente da Secult? O Senhor gostaria de permanecer no cargo caso o Governador seja reeleito?
Auto Filho: Confesso que sou excessivamente autocrítico, nunca estou satisfeito com o que faço. Nessa perspectiva, prefiro falar sobre o que falta e não sobre o que fiz. A política do livro e da leitura precisa dar continuidade ao programa de aquisição de livros para o sistema de bibliotecas públicas municipais e criar estratégias para que a sociedade ajude a montar os sistemas de bibliotecas comunitárias, empresariais e temáticas.
Também é necessário ampliar significativamente o programa agentes de leitura, que hoje atua em 30 municípios cearenses e 10 bairros de Fortaleza. Uma meta razoável para o próximo governo é levar o programa para 70 novos municípios e institucionalizá-lo, como o Governador já fez com os agentes de saúde. Por último, criar o Instituto do Livro e da Leitura na forma de Organização Social para cuidar de toda a política estadual para este setor fundamental da cultura.
No tocante aos demais setores sob responsabilidade da Secult, ficaria muito extenso expor aqui tudo que será encaminhado ao Governador até o final do ano. No entanto, posso destacar duas coisas: primeiro há necessidade de criar uma política forte de defesa do patrimônio histórico-cultural. Aqui é preciso ir além de uma mera coordenadoria dentro da Secult (como é agora) para criar o Instituto Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico-Cultural, com um quadro de profissionais altamente especializados, inclusive antropólogos, arqueólogos e paleontólogos; três grandes e modernos laboratórios: restauração, arqueologia e paleontologia, com capacidade para mapear e proteger os sítios e fornecer certificação para os grandes empreendimentos econômicos que pretendam se instalar em áreas litorâneas e sítios históricos de nosso Estado.
Segundo, reabrir a Pinacoteca do Estado para funcionar como cabeça de rede de um sistema estadual de pinacotecas municipais. Isso levaria a nossa arte ao povo e ajudaria a criar um mercado público permanente para nossos artistas visuais. Criar uma rede de cineclubes em 100 cidades e uma rede de teatros em pelo menos 30 municípios, para assegurar uma circulação cultural mais democrática e mais eficaz.
Quanto à pergunta se “gostaria de ficar”, devo esclarecer que trabalhar com Cid Gomes tem sido uma experiência gratificante, pois ele apóia com entusiasmo – e muitas vezes toma a iniciativa de propor – tudo que a comunidade artística e intelectual tem sugerido ou reivindicado. Mas, paradoxalmente, é muito doloroso, do ponto de vista da saúde, o exercício da gestão pública no primeiro escalão do poder executivo.
Vivemos um paradoxo: o governo fez a “opção preferencial pelos pobres”, mas o Estado é burguês. Quando tentamos voltar a máquina pública para servir ao povo, encontramos uma montanha de obstáculos burocráticos, legais e contábeis. Isso gera estresse e afeta a saúde de quem assume a missão de corpo e alma. Em síntese, o Estado burguês é por demais insalubre.
Por isso, vou trabalhar para que o mundo artístico e intelectual cearense ajuda a reeleger o Cid, mas não vou fazer qualquer movimento para permanecer no cargo.