Um novo polo de desenvolvimento
Situado na região metropolitana de Fortaleza, o município de Caucaia, com área de 1.300 km², poderia abrigar várias “Fortalezas”, como afirma Eliseu Souza dos Santos, titular da Secretaria de Desenvolvimento Econômico municipal. A força da expressão não se limita às dimensões geográficas, mas se refere também ao potencial econômico do município conectado ao Porto do Pecém, à refinaria, à siderúrgica e abriga o maior centro de distribuição do Ceará
Mapa de negócios em Caucaia
Uma breve passagem pela sede do município é uma amostra disso. O comércio é efervescente, a circulação de pessoas não para e a instalação de indústrias na região é crescente (ver o mapa na página 4). Mas tal observação não é suficiente para conhecer a verdadeira força que Caucaia exerce na economia do Estado.
Com mais de 300 mil habitantes, Caucaia é constituída pelos distritos de Catuana, Tucunduba, Mirambé, Sítios Novos, Guararú, Bom Princípio e Jurema, além da sede. Do seu litoral fazem parte as praias do Cumbuco, Barra do Cauipe, Parazinho, Barra Nova, Icaraí, Pacheco, Embuaca, Tabuba e Barra do Ceará. A imensa área territorial, aliada à sua riqueza natural, faz com que a região seja alvo frequente de grandes investimentos, privados e estatais, tornando-se um verdadeiro canteiro de grandes obras e referência em desenvolvimento industrial.
A posição geográfica torna Caucaia um ponto estratégico para receber investimentos de diversas naturezas. Suas praias são atraentes – está sendo finalizado o Vila Galé Cumbuco Golf Resort -, sua topografia é de boa qualidade e a região tem bom acesso a rodovias e ferrovias, o que a torna atrativa do ponto de vista logístico. Mas o grande trunfo de Caucaia não está em suas “dependências”: é sua proximidade com o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), localizado no município vizinho de São Gonçalo do Amarante.
O Porto do Pecém, menina dos olhos do governo estadual, abre as portas para vários empreendimentos chegarem até aqui. Desde novembro de 2008, o porto está em obras para ampliar a sua estrutura e facilitar as operações de embarque e desembarque, com vistas a atender a crescente movimentação de cargas. A intenção do governo é consolidar o porto como o maior exportador de frutas e de calçados no Brasil. As obras constam de três etapas principais - que serão finalizadas até março de 2016 - e somam um investimento de R$ 2,2 bilhões. Segundo a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), não está definido se esses recursos serão levantados somente pelo governo estadual.
Dentro da primeira etapa estão as obras do Terminal de Múltipla Utilidade (TMUT), que deverão, entre outras coisas, prolongar em 1000 metros o quebra-mar já existente, implantar linha de guindaste para os (des) carregamentos de containeres e ampliar em 363 metros a ponte de acesso ao terminal. A capacidade de movimentação de cargas do porto será quintuplicada. As operações comerciais do TMUT terão início em abril de 2011.
Essas obras de ampliação do porto são fundamentais para atender a futuros empreendimentos, como a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), que será viabilizada por conta do TMUT, pois, no projeto, um dos píeres irá operar exclusivamente para importação de matéria-prima e exportação de chapas de aço produzidas pela futura indústria. As obras iniciaram em janeiro de 2010 e deverão ser finalizadas em agosto de 2014. São US$ 5,4 bilhões investidos no projeto, que tem como sócios a Companhia Vale do Rio Doce – com 50% de participação - e as sul-coreanas Dongkuk e Posco, com 30% e 20% de participação, respectivamente.
Quando iniciar suas operações, a CSP deverá fornecer mais de 4 mil empregos diretos e outros 10 mil indiretos. Sem contar com os 23 mil - diretos e indiretos - já gerados durante as obras. É aqui onde mora um dos grandes benefícios para a população da região: as contratações para os postos de trabalho que serão abertos durante a fase operacional irão priorizar a mão-de-obra local. Foi a partir daí que surgiu outro projeto resultante da parceria da CSP com instituições de ensino, que deverá oferecer cursos de capacitação técnica para a população se qualificar profissionalmente e atender à demanda de empregos que surgirá. Nessa mesma linha, está sendo construído o Centro de Treinamento Técnico Corporativo (CTTC), um empreendimento do governo estadual - com investimento em torno de R$ 26 milhões - que pretende formar profissionais para suprir a demanda de empresas instaladas no Complexo Portuário. A expectativa é de que o centro fique pronto dentro de 10 meses e que seus cursos formem em torno de 12 mil pessoas por ano.
Outro projeto que foi atraído e que será beneficiado pela ampliação do Porto do Pecém é a refinaria de petróleo Premium II, que está inserida na segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento, do Governo Federal. Maior projeto estruturante do estado, a refinaria é classificada pelo governador Cid Gomes como o mais importante empreendimento dos últimos 40 anos, perdendo apenas para a chegada da energia vinda da hidrelétrica de Paulo Afonso.
Desde 2008 está decidido que a refinaria será implantada no Ceará. Na ocasião, foi decisivo o projeto de ampliação do porto. Foi garantido que as obras teriam início em dezembro de 2009, com planos de que a refinaria começasse a operar em 2014, mas dois entraves impedem o início das intervenções no local.
A área escolhida pela Petrobrás, estatal responsável pelo projeto, para ser construída a refinaria foi reivindicada por índios como sendo terras da tribo Anacé. O impasse ainda está em fase de negociação entre o governo, a comunidade indígena e a Fundação Nacional do Índio (Funai). Outra pendência é a licença ambiental que deve ser expedida pela Secretaria do Meio Ambiente (Semace). O documento só pode ser emitido depois que o órgão avaliar o Estudo e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) da Premium II que ainda está sendo concluído por empresas contratadas pela Petrobras.
Enquanto isso, a previsão é de que a primeira fase da Premium II entre em operação em 2013 — com capacidade para 150 mil barris por dia. Na segunda fase, em 2016, serão 300 mil barris por dia. A expectativa é de que a refinaria fature anualmente o que representa 45% do PIB cearense.
A revista Fale! entrou em contato com a Petrobrás, mas não obteve informações sobre os números do investimento por conta da sua operação de capitalização, período que exige silêncio sobre as operações da companhia.
Porém, o Porto do Pecém também receberá benefícios de um empreendimento que está fora da sua zona portuária: o alargamento do Canal do Panamá. Com a reforma, navios de última geração com 300 toneladas que antes contornavam a região sul-americana para chegar ao Ceará, vão poder atravessar o canal do Panamá, tendo o Porto do Pecém como o primeiro ponto de parada. Segundo Eliseu dos Santos, essa mudança na rota internacional de cargueiros tornará o Ceará, com a estrutura de Caucaia, o local de redistribuição de toda importação que chegar no Brasil. “E pode acontecer de o Ceará se tornar, por força das circunstâncias, um entreposto internacional. O depósito de grandes empresas – como Motorola, Hyundai, Honda.”, afirma Eliseu. Ele arrisca dizer que isso não está longe de se concretizar, faltando talvez 5 ou 6 anos, já que dentro de 4 anos o alargamento do canal deverá estar concluído.
Para incrementar a lista de atrativos para a região está a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) do Pecém. No último mês de junho, o presidente Lula assinou o decreto de criação da ZPE aqui no Estado. ZPE’s são distritos industriais, onde as empresas neles localizadas recebem incentivos fiscais com a condição de destinarem a maior parte de sua produção ao mercado externo. As empresas beneficiadas operam com isenção de impostos estaduais, federais e municipais e com liberdade cambial. Assim, o objetivo maior é atrair investimentos estrangeiros voltados para as exportações e dar competitividade às empresas brasileiras em relação às concorrentes em outros países.
Região Caucaia e São Gonçalo do Amarante
ATACADO. O Governo do Estado pretende instalar também em Caucaia o maior polo atacadista da América Latina. Para isso, atraiu o investimento de US$ 250 milhões da Varicred – em parceria com a Associação Cearense dos Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados do Estado do Ceará (ACAD) - e lançou em maio passado a Pedra Fundamental da Cidade do Atacado, que abrigará galpões de armazenamento, prédios para escritórios de grandes empresas, bancos, hotel, heliporto, restaurante, entre outros espaços.
O complexo terá uma área de 189 hectares e pretende disponibilizar uma infraestrutura completa para atrair atacadistas e tornar-se referência em comercialização de produtos em grandes quantidades. Funcionando, o centro deverá faturar R$ 1,2 bilhão por mês.
Segundo Michel Amim Jereissati, diretor da Varicred do Nordeste, mais uma vez a localização estratégica de Caucaia foi fundamental para tornar viável o projeto. O primeiro galpão deve ser inaugurado em janeiro de 2011. Na primeira etapa do próprio projeto, serão gerados mais de 300 empregos. Na segunda etapa, quando estiver funcionando, esse número passa para 7 mil.
Outra pretensão do governo é de construir em Caucaia o Centro de Comercialização de Rochas Ornamentais. Com investimentos na ordem de R$ 1,5 milhão, liberados pelo governo estadual, o projeto se dará em duas etapas. Na primeira, o espaço irá funcionar como um grande mostruário, permitindo o corte de rochas para a formação de blocos e a exportação do produto. Na segunda, o objetivo é atrair grandes empresas com tecnologia e equipamentos capazes de realizar a fase de beneficiamento, ou seja, de corte e polimento da matéria-prima. A intenção é conquistar os mercados americano e europeu, já que hoje o maior mercado para o produto é a China.
Um terreno de 30 hectares, doado pela prefeitura de Caucaia, está destinado ao empreendimento, que se realizará em uma parceria entre o governo de Caucaia, o Sindicato das Indústrias de Mármore e Granito do Estado do Ceará (Simagran) e o governo estadual através da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece).
Com tantos números, talvez não fiquem claramente identificáveis os verdadeiros benefícios que o Estado – não só os entornos do Porto do Pecém e Caucaia – ganhará a partir disso tudo. São empreendimentos ambiciosos que tentarão elevar a participação do Ceará na economia brasileira e dar peso ao seu nome nos âmbitos nacional e internacional. A visibilidade e o diferencial competitivo que o estado irá adquirir se todos esses projetos se concretizarem não serão mais importantes que os ganhos diretos para a comunidade local por conta dessa sacudida na economia. Em outras palavras, empregos.
“Nossa maior deficiência é no setor de emprego e renda, e agora estamos começando a mudar esse rumo”, disse o prefeito do município de Caucaia, Washington Góes, durante o evento que marcou o início das obras da Cidade do Atacado. Esbanjando tanta atração aos mais diversos investimentos e vislumbrando tanto desenvolvimento, cabe reforçar o que foi dito anteriormente: o potencial econômico de Caucaia está à altura de suas dimensões geográficas. Quem sabe, nesse ritmo, mais “Fortalezas” caberão ali.
"E pode acontecer de o Ceará se tornar, por força das circunstâncias, um entreposto internacional. O depósito de grandes empresas – como Motorola, Hyundai, Honda."
Eliseu Santos, sobre o desenvolvimento industrial em Caucaia.
Caucaia e Pecém em números
CIDADE DO ATACADO
• 189 hectares é a área destinada ao empreendimento
• US$ 250 milhões é quanto será investido
• R$ 1,2 bilhão é a expectativa de faturamento
por mês
• 300 pessoas ou mais
serão empregadas
diretamente ainda na primeira fase do projeto
• 7 mil empregos diretos serão gerados quando o projeto estiver em funcionamento
• Mais de 40 empresas associadas à Acad pretendem instalar escritórios no Centro
PORTO DO PECÉM
• R$ 2,2 bilhões é o investimento para a ampliação
do Porto
COMPANHIA SIDERÚRGICA DO PECÉM
• US$ 5,4 bilhões serão investidos no projeto
REFINARIA
• 45% é quanto irá representar para o PIB cearense
Centro de Comercialização de Rochas Ornamentais
• R$ 1,5 milhão é aproximadamente quanto se investirá
• 30 hectares é a área do terreno destinado ao empreendimento
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